quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ouija Shakespeariano

Pompeu
Penélope
Astrogildo

(3 amigos sentados no chão brincando com um tabuleiro Ouija)

Pompeu - Penélope caríssima, dama de longas tranças, podes fazer de mim o primeiro a jogar em tão fabuloso tabuleiro?

Penélope - Claro amicíssimo meu, todo seu és o tabuleiro. Algo contra Astro?

Astrogildo - Não quero constranger a vontade de meu querido Pompeu.

Pompeu - Devo lhes agradecer fiéis amigos. Tabuleiro que aqui estás, pergunto-lhe se neste local existe alguma alma que queira conosco se comunicar? E que Jesus, nosso Senhor, nos proteja daquelas que se atrevam a querer-nos fazer algum mal. Sabemos que o dia do juizo logo chegará, assim como o filho de Deus nos afirmou. Portanto, Ouija, aja!

Penélope - Nada acontece. Precisamos fazer alguma prece?

Astrogildo - O céu e o mar são testemunhas do que vou lhes dizer: Meu pai disse-me uma vez que esses jogos servem somente para assustar os tolos. Juro por Davi que eu já sabia o que aconteceria.

Pompeu - És realmente muito sagaz! Deveria nos ter alertado com antecedência, meu nobre!

Astrogildo - Seria acabar com suas vigorosas expectativas.

Penélope - Meus queridos, não estou bem!

Pompeu - O que tens?

Penélope - Calafrios...

Astrogildo - Não fico à vontade nessas situações.

Penélope - Acho que vou desm... (desfalece)

Pompeu - Traga ajuda, anda! Ficarei com nossa amiga.

Astrogildo - Logo retorno com um médico!

Pompeu - Espero que não seja tarde demais...

(Alguns segundos depois)

Pompeu - Essa linda dama que agora se apresenta desfalecida nos meus braços é tão doce e pura quanto o néctar de uma rosa existente no paraíso. Como queria ter esse amor. Esses olhinhos fechados! Parece estar implorando por carinho a minha querida Penélope. Longas mechas douradas que parecem com o ouro celestial das harpas tocadas pelos anjos. Ei-la. Eis-me aqui a apreciar tão rara beleza. Poderia beijá-la agora, claro! Não, não seria certo sem seu consentimento! Aproveitar-me de tal situação seria algo vergonhoso para um gentil moço como eu. Que as ninfas me flagelem por pensar em tal qualidade de coisa. O que, estás por despertar! Devo cessar meus pensamentos caluniosos.

Penélope - Pompeu! Apaguei completamente. Não sei o que houve.

Pompeu - Fique calma criança. Logo Astro retornará com um doutor!

Penélope - Talvez não seja necessário, estou melhor.

Pompeu - Nunca se sabe o que pode acontecer...

Penélope - Tens razão.

Pompeu - Podes continuar aconchegada nos meus braços enquanto isso.

Penélope - Não cheguei a pensar o contrário. És realmente um cavalheiro Pompeu!

Pompeu - Nada que outro moço bem apessoado não fizesse diante de tão delicada situação.

(Astrogildo retorna com o Médico)

Astrogildo - Vejo que ainda cheguei a tempo de salvá-la!

Médico - Parece-me que a situação não é tão grave como pensava. A rapariga retomou os sentidos.

Pompeu - Graças ao nosso Rei maior!

Médico - No entanto, pelo que posso observar, ela sofre de algo que não tem cura.

Penélope - Como assim ?

Médico - Primeiro preciso que Pompeu se deite, pois vou examiná-lo antes.

Pompeu - Não compreendo...

Médico - Anda! Ousas desafiar a ciência? Por Pitágoras! Não peço grande coisa a ti para fazer tal escânda-lo! Nossa juventude não é mais a mesma, a tudo questiona os mais experientes!

Pompeu - Deitado estou! Não precisa mais esbravejar!

Médico - Deixe-me ver... Sim, como pensava! Também não tem cura!

Pompeu - Oh não! É algo muito grave? Terei de avisar meus pais...Espero que meu irmão mais novo honre a família após receber toda a herança no meu lugar. Assim mesmo obra a fortuna em nosso caminho, não importa quão virtuosos sejamos! Longe no horizonte posso sentir minha alma se esvaindo no Vale das Almas. Orgulho-me de ter sido fiél aos meus princípios toda a minha vida! Anjo da morte, estou pronto para enfrentar o que para mim está destinado...

Médico - Agora preciso examinar a rapariga.

Penélope - Faça o que tens de fazer.

Astrogildo - A angústia tomou conta do meu coração...

Médico - Sofre do mesmo mal que Pompeu! É incurável! No entanto, acredito que ambos podem se ajudar.

Pompeu - Como, astuto senhor?

Médico - Sejam sinceros uns com os outros!

Astrogildo - Como?

Pompeu - Hein?

Penélpe - Hã?

Médico - Examinei a ambos e cheguei a uma conclusão. Estão apaixonados! Seus corações não mentem! Nunca apreciei órgãos com tanta vitalidade. No momento em que cheguei e os vi naquela cena digna de qualquer fábula de amor, fiquei sem vontade de interromper. Assim sendo, digo-vos: sejam felizes! E adeus!

Astrogildo - Espere senhor, vou acompanhá-lo! Quero deixá-los a sós para resolverem tal questão!

Médico - Sábia atitude, jovem!

(Saem)

Pompeu - Estás enrubescida...

Penélope - Não sou a única.

Pompeu - Queria lhe dizer que és perfeita!

Penélope - Pois digo-lhe o mesmo meu querido.

Pompeu - Faz anos que escondo meus sentimentos. Medo de perder sua amizade!

Penélope - Repito: digo-lhe o mesmo! Somos dois tolos!

Pompeu - Somos jovens!

Penélope - Estás certo.

Pompeu - Sinto-me como se estivesse flutuando por entre as ondas sísmicas. Meu coração bate forte agora ao seu lado, querendo saltar à boca! Como sonhei tantas vezes com esse momento, no qual saberias que te amo.

Penélope - A felicidade bateu também à minha porta. Nada poderia ser mais belo do que isso que agora vivenciamos.

Pompeu - Beijar-te deve ser tão refrescante quanto nadar nas lagoas do Éden.

Penélope - Então por que não experimentas saciar-se nessas lagoas?

Pompeu - O que me pedes há de receber...

Penélope - Com todo meu consentimento...

Tabuleiro Ouija (escrevendo sem que os dois enamorados percebessem) - A M O R.

4 comentários:

Bruna Oliver disse...

AHHHHHHHHHHHHHHH
QUE LINDOOOOO
DEU VONTADE DE INTERPRETAR ESSA CENA NUM TEATRO MEU!!!!!!!!
MANDOU MTO BEM LÊ

Samira Baião, ou a tosca. disse...

DOIS PRA BRUNA!!!QUE LINDO!!!!!

"o poeta da verdade" disse...

Interessante o blog! Uma escrita bem equilibrada rapaz...em relação ao tabuleiro , já participei da mesa com os copos , rsrs, mas na hora "H" fugi da raia! Achei q o final fosse trazer outra palavra ...

Carlos de Thalisson T. Vasconcelos disse...

Cara, tu fazes os teus textos de uma vez como eu ou os faz e refaz? Este está simplesmente excelente, como todo o pouco que já li de tua mente. Gostei muito... De leitura sempre agradável e interessante. Abraço, Lê!