domingo, 20 de março de 2016

As pedrinhas a raspar o chão

Rua morta, um caminho só
Deus ajude para ir em paz
As pedrinhas a raspar o chão!

Rua morta, um caminho em pó
Deus ajude no olhar pra trás
As pedrinhas a raspar o chão! 

Deus ajude para ir em paz
Natureza vem a sufocar
As pedrinhas a raspar o chão!

Rua morta, um caminho só
Numa casa ouço o soluçar
As pedrinhas a raspar o chão!

Natureza vem a sufocar
Quem de longe vem aqui sofrer
As pedrinhas a raspar o chão!

Numa casa ouço o soluçar
A poeira a tocar o sol
As pedrinhas a raspar o chão!

Quem de longe vem aqui sofrer
As pedrinhas a raspar o chão!
Rua morta, um caminho só

A poeira a tocar o sol
As pedrinhas a raspar o chão!
Deus ajude para ir em paz


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Minha porquinha da Índia

Era uma vez um menino carente,
distante e só, de pires no sol.
Tanto sonhava com a alegria
E Sujo vivia, a lama, lençol.

E Pulava corda, sorria contente
Sem nada, sem dente, jogar futebol.
Pois na bicicleta, sem marcha, discreta
Corria na reta igual caracol.

Mas tudo perdia, era solitário
Tentava um acorde, difícil bemol.
Então, na cozinha, um fato hilário

Porquinha da Índia fisgada no anzol?
Lá não tinha nada, moleque otário
menino carente, sem dente, mongol.



terça-feira, 7 de outubro de 2014

2014

Di uma dúvida
votou aé
está no cio
tiro no pé
sombra pulula
vociferar
direita és nobre
endireitar
Se em direito
Só safanão
Ptolomaico
Cano na mão
Tu que serias
sábio confirma
és tão disforme
Que desanima

Nem escritório
nem lamparina.
Mundo ilusório
vista de cima. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Menina linda do amor sem fim

Ela diz que sou bobo. Concordo. Só um bobo ama. Pois o amor é a coisa mais idiota que existe. Tira o sono ou faz dormir; tira a fome ou faz comer. Amantes são bipolares por conta da própria essência do amor. Se sou bobo, ela é boba. E linda. Cada parte de sua alma é linda. Criatura risonha, não admite perder uma disputa no que diz respeito a ser especial. Ela é especial. Em todos os gestos, desde o momento em que o sol nasce até ele sumir no horizonte. É doce e amarga. Traz felicidade a todos os meus momentos. As brigas diluem no seu sorriso. Habilidade que somente almas nobres possuem. Quero isso, quero aquilo, e consegue. Nunca vi tanta força de vontade em alguém. Suas vontades correm em sua direção. O universo se curva e faz o que ela quer a todo o momento. Não sem esforço. Pois ela é batalhadora. Não come, não dorme, passa horas resolvendo coisas que eu não consigo lidar em minutos. É ágil, faz tudo numa velocidade impressionante. E tudo bem feito. Um perfeccionismo que abala outros perfeccionistas como eu. Ela quer, ela faz. Ela diz, está feito. Ela é justa nas palavras e nos atos. Ela ama, e da maneira mais pura. Eu a amo, mas estou aprendendo a amar com ela. Um amor de entrega, de dedicação. Construir alicerces. Dar base a um castelo de sonhos. Compartilhar utopias, incentivar desejos. Viver em plenitude. Viver ao lado dela é uma dádiva. A cada dia um novo ensinamento. A cada dia mais gosto pela vida, mais vontade de sair por aí dizendo a todos como ela me faz feliz. Felicidade de conhecer alguém que age, que é dona do próprio destino. Não se abala por qualquer acontecimento aparentemente negativo que poderia causar estrago nas pessoas mais fracas como eu. Não que ela não tenha os momentos de tristeza. É aí que eu geralmente apareço, dando apoio, não sempre de forma tão eficaz quanto ela. Mas acredito que surte efeito. E rapidamente ela volta a ser essa criatura de luz que atrai qualquer um que esteja perto dela. Então ela doa energia, fica cansada, dorme demais para recompor energias. É difícil ser anjo. É difícil ajudar aos outros dessa forma. Se preocupar com tudo e com todos à sua volta. Sofrer pelos outros. Querer ajudar até quando não tem muita possibilidade disso. Como se diz, fazer das tripas o coração. Lutar. Confiar nos outros, mesmo quando não são tão confiáveis. E até quando estes a decepcionam, não fica assim tão abalada. Segue em frente. Parte para outra. E dessa maneira ela vai caminhando ao meu lado. Com seu sorriso, com seu esquema de vida, suas reflexões, seus livros, seus bichos. Cachorros, gatos, todo o tipo de animal acaba por se encantar por ela. Chegam perto, acariciam, brincam. Fazem parte do mesmo mundo. Pertencem aos seres que vieram para encantar e deixar os outros cada dia mais felizes. E ela é feliz, vejo em seus olhos, vejo em suas expressões. Quando termina alguma atividade, quando termina um livro, ao caminhar, ao comer e beber, ao assistir, está lá alguém que realmente se satisfaz com o que o mundo tem a oferecer. Não fica reclamando de qualquer coisa. Apenas usufrui. Segue em frente, segue os objetivos, não importando o quanto isso será difícil de se concretizar. O tempo age em seu favor. O tempo acaba no momento que ela quer. Domina o tempo, domina o amor. Um amor diferente, mais amplo, mais profundo. Amor puro em sua essência. Radiante, que chega na gente e energiza. Nunca conheci um amor assim. Nunca amei ninguém assim. Sou grato por conhecer uma pessoa que me completa dessa maneira. Sou melhor por conta dela. Só posso ficar agradecido e continuar contemplando. Ela é assim e sempre será. Divina forma que se fez mulher. Menina linda do amor sem fim. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Narcisos



Vocês são lindos
E de dar dó
E eu, feiura
Voltando ao pó

Inteligentes
E geniais
Superam os deuses
Celestiais

Aqui na Terra
Sem sol, sem cor
Vou ao buraco
Vou ao torpor

Ignorância
Me satisfaz
Pois não sei nada
Não sou capaz

Vocês são tudo
Sou um ninguém
Não tenho imagem
Não vivo bem

E vocês brilham
Voam ao céu
E eu na Terra
E eu ao léu

Cavoco mais
Verme maldito
Aqui na Terra
Eu admito
Estou cansado
De tanto mito
De tanta cena
De tanto grito
De tanta estátua
Que eu evito
De tantos seres
Com quem habito
De tantas almas
De tanto atrito
Da perfeição
Que tanto cito
Só em palavras
O erudito
Só em imagens
O contradito
Chego enfim
Ao veredito
E o culpado 
É o infinito
E o culpado
É a quem fito
Junto ao espelho
Eu me limito

Cale a boca!

E tenho dito.


Leandro Francisco de Paula


sábado, 9 de novembro de 2013

Ensinamentos

Era pequeno e queria abraços
Suspiro alto, canta o bem-te-vi
Assino forte complicando os traços
poema enorme que eu nunca li

Era pequeno e queria beijos
Suplico ao monte tão aterrador
A pá na terra sobrepõe desejos
secar sementes e nascer a flor

Era pequeno e queria sonhos
Divago quieto na vaidade sã
O tempo, nobre, traz a sapiência
Abre a janela para o amanhã

Agora, grande, digitando linhas
Agradecido pelo bom devir
colhendo frutos dessas lindas vinhas
Chegando agora pra me redimir

Pois só com ela o valor das frases
Faz mais sentido e recebe cor
A rima é pobre, mas eu não me importo
Mais importante é o meu amor. 

Leandro

terça-feira, 15 de março de 2011

(CONTO) Quando se encontra o amor perfeito...


Tiago - Oi, você que é a Diana?
Diana - Sou! E você é o Tiago?
Tiago - Isso mesmo!


Diana - Eu não sou muito de fazer esses encontros, mas a Maria insistiu tanto...
Tiago - Pois é, digo o mesmo. Mas ela disse que ia ficar brava comigo se eu não viesse.
Diana - Ela é assim mesmo, chantagista até o último!
Tiago - Uhum... Mas então, soube que você é zootecnista. Não sei direito o que é isso.

Diana - Trabalho com animais de grande porte.
Tiago - Ah tá... Deve ser difícil.

Diana - Imagina você colocar o braço no ânus de uma vaca enquanto outros homens ficam babando em volta, sentindo um tipo de tesão meio bizarro... hehe
Tiago - Credo! hahaha ... Homens né. 
Diana - E você eu soube que é professor de filosofia.

Tiago - Isso! Se quiser saber alguma coisa sobre Diderot, eu sou o cara!
Diana - Muito obrigada, mas nunca nem ouvi falar.
Tiago - Normal...
Diana - Vamos beber alguma coisa?
Tiago - Topo!


(acenam para o garçom)

Diana - Um Jack Daniel's, por favor. Sem gelo.

Tiago - Nossa... O mesmo pra mim.
Garçom - Anotado. (foi buscar o pedido)

Tiago - Caramba, eu adoro Jack! 
Diana - Ah, eu aprendi a tomar quando estava na faculdade.
Tiago - Interessante. Poxa, cansei de vir beber com alguma garota e ela pedir uma coca com limão. No máximo um Martini. 
Diana - Ui. Martini é doce e enjoativo.
Tiago - Sim, exatamente! Não consigo tomar mais do que um copo. E até hoje me pergunto o porquê de as pessoas dizerem que é bebida de mulher. Preconceituoso, não?
Diana - Demais. Acho que é essa ideia de que mulher tem que ser meiguinha, ingênua, boba. Que não pode apreciar uma boa bebida e que tem que ficar com essas frescurinhas.
Tiago - Com certeza. Deve ser isso mesmo.
Diana - Você parece entender as mulheres...
Tiago - Tento entender, mas não me dou muito bem com elas.
Diana - Por quê? Você é boa pinta, como dizem... Pelo que vi, é inteligente. Tem bom papo.
Tiago - Bom papo? É porque você está me dando brecha para conversar, o que a maioria não faz. 
Diana - Como assim?
Tiago - É complicado. Eu tenho conteúdo, mas é difícil usá-lo. Chega na hora, travo! É mais ou menos como quando eu citei Diderot para você. Entende? Eu poderia falar sobre qualquer coisa contigo. Um assunto qualquer jogado ao vento... Eu saberia conversar. Mas eu tenho encontrado mulheres que prestam mais atenção nas coisas superficiais do que no conteúdo. Então fico naquela eterna tensão. Parece que eles prestam atenção em cada detalhe do meu rosto, cabelos, roupas. Então, falam superficialidades: a roupa da menina que está à frente delas, o cheiro que vem da cozinha, o clima. Frases como: "está tão calor" ou "Choveu muito nessa semana" são as mais ditas. E eu concordo. E aí elas olham pra mim esperando que eu salve a noite delas com alguma coisa interessante. Talvez uma piada idiota. Ou algum elogio cercado de outras piadas idiotas. hehe
Diana - Eu entendo você. O meu problema é semelhante, pois me deparo exatamente com caras que fazem esses elogios e piadas idiotas. Geralmente são bonitos, musculosos e com pinta de gays. Aliás, não boto minha mão no fogo! haha! Enfim... Eu vejo que eles só querem me comer mesmo. E burrice me desanima. Ficam com essas frases feitas, tipo "Ai gatinha,, como está linda" ou "nossa, que princesa é você", etc. E eu rio das piadas deles. Mas na verdade o meu riso é voltado a mim mesma e na situação na qual me meti. Dou risada do fato de estar na frente de um imbecil novamente. E esse tipo de cara também não sabe escolher bebida. Pede cerveja do pior tipo... Geralmente da mais barata. E acha que está arrasando quando pede um Natu Nobilis! hahaha
Tiago - Deus me livre!
Diana - Viu, pra nós mulheres também é complicado!
Tiago - Eu sei. Acho que pra todos nós, não é?
Diana - E essa coisa de "gosto de quem não gosta de mim, mas não gosto de quem gosta" ?
Tiago - Isso é meio que uma lei universal! 
Diana - Também acho. Inúmeras vezes eu gostei de caras que não me davam bola. É o inferno. Você sofre demais. Fica tentando chamar atenção e ele nada... Te vê como uma pessoa qualquer.
Tiago - Nem me fale! Sempre acontece comigo. Fico projetando minha vida com aquela pessoa... Grandes planos, grandes beijos estalados. Mas aí quando olho pra realidade, sou o cara que ela nunca vai ficar. Quando me vem uma pontinha de esperança,ela fala de quem está a fim... Aí começa a elogiar o sujeito. Diz que é maravilhoso e blá blá blá. E eu fico lá ouvindo... Viro amigo. Dou conselhos até. É o meu carma. 

Diana - É. E aí tem aquela pessoa que gosta de você... E a gente percebe isso logo de cara! E tenta fugir. A pessoa te elogia, dá indiretas. E você se desvencilha de todas as formas que pode. Até que chega o momento terrível...
Tiago - Já sei qual é esse momento. Deixa eu adivinhar! É quando você finalmente fala pra ela que só gosta dela como amigo e que não vai rolar nada. Aí a pessoa fica magoada e acaba com seu dia... E pode acabar inclusive com a sua semana. Porque ninguém gosta de magoar o outro, não é mesmo?

Diana - Exato!
Tiago - Por que não acontece igual nos filmes e novelas, nos quais as pessoas se apaixonam logo de cara e descobrem que são almas-gêmeas e vivem felizes para sempre?
Diana - É, a realidade é bem mais cruel. Apesar de que... hum.. (fica pensativa)
Tiago - Diga!
Diana- Não, é bobeira! (dá um sorriso)
Tiago - Ah, agora vai ter que falar! (sorri também)
Diana - Tá bom. Assim, eu gostei de você pra caramba!
Tiago - Nossa, sério? Achei que estava me achando meio esquisito...
Diana - Claro que não! Tô aqui toda empolgada com você...
Tiago - E eu te achei maravilhosa desde quando cheguei aqui. O seu olhar me dominou de uma forma.
Diana - E você tem um jeitinho que eu achei muito sexy... Meio atrapalhado, mas inteligente. Sarcástico e gentil. Adorei!
Tiago - E você é especial. Engraçada, sorridente. Está iluminando todo esse lugar aqui. E sua conversa é envolvente. Linda e perfeita! Um achado! 
Diana - Está me deixando sem graça.
Tiago - E é a primeira vez que isso acontece comigo... Não sou de falar essas coisas, mas com você foi diferente.
Diana - Digo o mesmo.
Tiago - Acho que vou ter que te...


(antes dele terminar a frase, Diana puxa seu rosto e os dois se beijam)


Tiago - Nossa, isso foi melhor do que ler Diderot, com toda certeza...
Diana - Para um nerd, até que você beija bem.(sorri)


(se beijam várias e várias vezes e continuam naquele papo descontraído. Sempre abraçados e expelindo o mais puro amor)


Tiago - Vamos embora então? Está tarde...
Diana - É verdade. E amanhã eu trabalho logo cedo. 
Tiago - Meu carro está do outro lado da rua, no estacionamento.
Diana - O meu também! 
Tiago - Ah, claro que você dirige... Imagine se uma mulher como você não dirigisse! haha
Diana - Bobo!
Tiago - Vamos?
Diana - Uhum.

(Saem do estabelecimento)

Uma freada brusca. BUM! Dois corpos ensanguentados no meio do asfalto. Logo se ouve a sirene do IML. 

A vida real não é conhecida por conter muitos finais felizes.


FIM

sexta-feira, 11 de março de 2011

Medo de ficar possuído pelo demônio (Ao fim desse texto você vai ficar, cuidado!)


O que vou contar aqui é muito chocante.

Eu, professor de história, estava sozinho na sala de aula cumprindo horário, quando observei que na gaveta da minha mesa havia um diário empoeirado. Abri. Era de 1984. Ano em que eu havia nascido. Lá fora começara uma chuva intensa. Os alunos haviam saído para um passeio e só havia eu e alguns poucos professores na escola. Resolvi continuar lendo o diário. Nele havia um nome: Samantha. Seria a dona? Mas o que tal coisa estaria fazendo naquela gaveta?

E segui a leitura.


13 de Janeiro de 1984

Tenho 10 anos, ganhei esse diario da mãe e ela dice que é para mim aprende a escreve direito.Vim aqui escreve então né, sabe. Achu qui vai se difíciu no começu, mais vou tenta. 

15 de Janeiro de 1984

Hoge asistimos um filme chamadu Exorcista. Naum consigui assisti até o final, porque fiquei com muitu medo. Depois foi muitu difissil durmi. Acordei de madrugada. 

17 de Janeiro de 1984

Ganhei um gato, vo brinca com ele.

19 de Janeiro de 1984

Ando esquisita. To sem vontadi di levanta... vamos ver se passa isso né.


22 de Janeiro de 1984


Tadinho do gatinho. MATEI, MATEI, MATEI, MATEI, MATEI, MATEI, MATEI, MATEI, MATEI



Achei muito esquisito esse último escrito. Porém, continuei na leitura.

24 de Janeiro de 1984


Meu gato morreu. Tava com o pescoço quebrado e hoge enterramu ele. 


25 de Janeiro de 1984

Me deu vontadi de escreve DIABO DIABO DIABO DIABO

O tempo nublado fazia aquela tarde parecer uma eterna noite. O vento soprava forte e as árvores chacoalhavam. O vento fez a porta bater sozinha... Eu estava com um pouco de medo daquilo que lia.


26 de Janeiro de 1984



Hoje eu peguei uma faca e cortei a minha perna... Depois bebi um pouco do meu sangue! HAHAHA



30 de Janeiro de 1984


Não sei o que tá acontecendo comigu... só sei que eu tenho medo. Hoje senti uma mão pegar no meu pescoço enquanto durmia, mas naum consigui grita


1 de Fevereiro de 1984

Furei o olho de uma colega minha na escola com a caneta! HAHAHAHAHAHA A puta da minha mãe vai ter que responder processo! 

3 de Fevereiro de 1984

Hoje eu fui até o quarto dos meus pais de madrugada com a faca na mão. Mas ainda não fiz nada com aqueles imbecis! MATAR MATAR MATAR MATAR MATAR



5 de Fevereiro de 1984

Eu to cum medo! Acordei hoje e meus pais não levantaram ainda.


7 de Fevereiro de 1984


Tô na casa da minha tia. Chorei muito, porque meus pais morreram e cabei de volta do enterro. A polícia acha que eles si mataram com a faca

9 de Fevereiro de  1984

VOU MATAR MINHA PRIMINHA DE 2 ANOS!!! HAHAHA

12 de Fevereiro de 1984

DIABO DIABO DIABO DIABO DIABO DIABO 

14 de Fevereiro de 1984

Minha prima morreu. Bateu a cabeça. Minha tia está triste. Meu tio tá viajando.

16 de Fevereiro de 1984


A vagabunda da minha tia vai ter uma surpresa essa noite...

20 de Fevereiro de 1984


Meu tio está aqui sem saber o que faze. Teve que voltar de viagem, porque minha tia e minha prima morreram...

1 de Março de 1984

Estou morando no internato. Todo dia morre alguma criança aqui e as freiras não sabem mais o que faze. 

10 de Março de 1984


Elas querem me exorcizar! HAHAHAHAHA ESSAS PUTAS!

13 de Março de 1984

Tô chorando aqui... Uma voz falou no meu ouvido que vo morre hoje.

13 de Março de 1984


....


A última mensagem só tinha alguns rabiscos.

Voltei pra casa. Um apartamento no centro. Estava perturbado demais... Tomei uma cerveja, assisti um pouco de televisão e peguei o diário novamente... observei-o um pouco mais. Logo cochilei. Era o ano de 2010. 

Acordei no meio da madrugada. Tomei um susto. No diário estava escrito:


10 de maio de 2010 

UMA BELA MADRUGADA PARA FICAR POSSUÍDO! HAHAHAHA

Meu coração disparou. Não sabia o que fazer. Eu havia escrito aquilo? Fui para o quarto tentar dormir, mas apenas suava frio. Me debati várias vezes durante a noite. 

No outro dia fui para a escola normalmente. Voltei para casa. Aquele diário me perturbava muito. Dormi. Acordei de madrugada no meio da sala escrevendo no diário. 


12 de maio de 2010

SATANÁS É O MEU SENH... 

Dei um pulo com o susto que levei ao ler tal coisa. O que estaria acontecendo comigo? 

....

Desde aqueles dias, todos os dias alguma coisa acontece de estranho comigo. Procurei especialistas, padres, pastores, pais de santo. Nada surtiu efeito. Todos dizem que estou possuído pelo demônio... E a minha única salvação é passar isso para frente, como se fosse uma maldição mesmo. Por isso escrevi esse texto. Quero que hoje, você que está lendo isso aqui, seja o novo alvo do diabo. Quero ficar livre de tudo! Não aguento mais. Já faz quase um ano que passo por isso... Foi minha única alternativa, me desculpe. Hoje à noite, talvez de madrugada, você que está lendo isso aqui vai ficar possuído no meu lugar. 

Peço o seu perdão. Foi minha única alternativa. Espero que consiga conviver com isso, pois eu não consegui. 

Adeus.




quinta-feira, 10 de março de 2011

A Intensidade



A tensa e extensa intenção
A instância extinta no instante
A astúcia extirpada no estilo
A história externa e estridente
A áspera espera ao espelho
A expectativa da experiência
A explosão do espírito
A explicação explícita
A execução estúpida

terça-feira, 1 de março de 2011

A Trupe

O truque da trupe:
É tudo em tropa;
a tudo se estrepa
e a tudo se estripa.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A-mo-r-ca-la-do

Amor-ca-la-do-ce-ti-co-ti-co-nhe-ci-do-ta-do-de-be-le-za-do-ta-do-en-te-di-a-do-ce-i-lu-são-pou-co-se-res-pei-to-do-ser-tem-um-dia-bo-li-co-res-pon-sa-vel-o-ci-da-de-do-re-sen-ti-dos-es-de-uis-que-ro-mais...

Crucificação

C
r
 C r  u  c  i f i c a d a
a
t
i
v
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d
a
d
e

Carta de apresentação


A quem interessar poça,

C
      a 
           i
               a 

                         na

                                       


                         fossa

Hai Cai

Seu nome é Hai
escorrega
Hai cai

O Gago


Ga ga gago
Tra tra trago
Ci ci garro
Na-não largo

Pa pa pago
Pe pe pego
Me-meu troco
Tá contado

Se se sento
No-no fundo
Do do Ô
Ô... não consigo!

Me me sinto
Can-cansado
Tra-trabalho
i i i i iiiiiiiiiiiiiiiiiii
 


gual condenado


To-to-to-toooooooooo! Droga!


Todo dia
Me-me-mesma
Co-co-coisa
cha-cha-chata

E-e-e

se-se

cansa-sa-sa

ço-ço-ço...........................

Só me mata!

A-a-acho
que-que-que
Vou-pe-pe...........
 
dir demissão

Não a-a...........
 
guento

o empre......

go go


Na-não gosto
 

Do pa-pa-pa.............Droga!

 

Trão!!!



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Vejo a Inveja

Vejo a inveja.

E como vejo!
Via vultos,
Varejeiras
e vertigem.
Vai vestida e vem de vida.


Vejo em volta.

E vem viscosa
a inveja viradoura.
Vem virando
a vestimenta
viajando pelo vento
tão veloz e virtuosa.

E Vai voando
e vertendo tantos vultos....
Vai que vai a venenosa!



Valiosa,
vez por vez
velocidade,
vadiando violência,
vejo tudo pelo vale.

E valente,
vou varrendo 
a
vaidade,
violando o veneno
 a vultosa validade.

Vem Valendo,
viram vozes veludosas
vindo em vela
valiosa,
vai que vai
e vai velada.

Vou voando,
variando a virtude,
viajando vou vivendo.
Venho com velocidade.


E
virando
venho e venho com a vida,
Vívida e variada,
Vai valendo e vai vivida.

O que via,
Eu não vejo mais valendo.
Nada disso me aleja,
pois não vejo mais inveja.



A Briga



Encrenca intrínseca à bronca:
Se tranca em conversa franca,
Se entronca e dá carta branca,
Se trinca mas nunca se trunca.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O papo


O papo do Paco opaco
O papo do Pedro é pedra
O papo da Puta é Truta
O papo da Pita excita
O papo da Paula é aula
O papo  da Penha é lenha
O papo do Povo é novo
O papo do Padre invade
O papo do Preso, ileso
O papo do Pobre é nobre
O papo do Pombo é tombo
O papo do Peixe, o deixe
O papo da Ponte é fonte
O papo da Pata empata
O papo do Pinto, eu sinto
O papo do Preto, eu meto
O papo da Paca empaca
O papo do Papa empapa


E papo por papo, um saco. 

Caçada


Cutuco a cocota cativa, que nada!
Castelo n'areia cavoco c'aenxada.
Catei o coturno soturno da amada,
Cravei na comadre c'a cruz e a espada.
Cruzei a catraca , subi a escada,
Curvei no caminho qual véia encurvada,
Comi no comício, sujei a calçada,
Cremei o cachimbo c'a boca calada.
Chamei o coelho, lhe dei a facada.
Cumpri com a meta da boa caçada;
Colhi cumprimentos no meio d'aestrada,
Chorei de desgosto no poço do nada.
Clamei ao confuso, ao conciso, à fada.
Comprei a minh'alma nunc'antes achada;
Curei a cocota cativa algemada,
Calei quando soube que era casada.
Chorei novamente inté madrugada,
Cobrei da estátua, não recebi nada;
Caí qual cadáver na suja calçada,
Clamei por perdão de alma lavada.
Clamei por perdão de alma lavada
Clamei por perdão de alma lavada
...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Amor Ocioso

Faz uns 3 anos que escrevi esse texto, só que para outro blog. Resolvi colocá-lo aqui. Acredito que precise de revisão. 

Olho para o teto, pequenas vertigens. Paredes cor de gelo de uma manhã ensolarada. A cortina balança aos poucos, fazendo barulhinhos ao bater na janela. Sinto o vento passar pelo meu rosto. Viro e vejo você, ao meu lado, debaixo das cobertas. Por favor, não acorde agora! Quero contemplar essa imagem. Não vou dizer aqui que é imagem divina, que você é a mais linda, que a mais legal...Você é você, e é minha, ao meu lado. Cabelos espalhados no travesseiro, respiração suave, olhos cerrados e pele lisa. Admirar você me lembra nosso primeiro beijo. Macio, quente, adocicado com vinho tinto. No primeiro momento que te vi não gostei tanto de ti. Achei irritante, com esse jeito de "sou demais e não chegue perto". Aos poucos fomos nos conhecendo e cheguei à conclusão de que era a mulher da minha vida. - Estava aqui pensando, quero muito ir no parque dar umas caminhadas, que tal ir comigo? - Tudo bem! Quando vamos? 
Esse foi o início de tudo. Demorei pra falar que te achava linda. No começo não conseguia olhar nos seus olhos, porque sentia como se estivesse fazendo uma leitura da minha alma. Por várias vezes quase desisti. No entanto, agora essa menina está aqui do meu lado. Quantas brigas, desentendimentos. Ciúme da minha e da sua parte. Felicidade e tristeza. Champagne e vinho tinto. Uísque e música romântica. Esse perfume simples e sucinto que só uma pessoa bem atenciosa consegue sentir. Essência de mulher. Isso, dorme meu bem, dorme que tem um mundo lá fora. Descansa esse corpo para que ele enfrente mais dias felizes. O relógio está marcando a hora de levantar. Que tal um café? Ah, ainda não. Vou ficar mais um pouco do seu lado. Toma um beijinho no rosto meu bem. Isso, não acorde. Lembro-me de você na praia. Sorridente como sempre, correndo na areia branca. Nos jogamos no mar e nos beijamos como sempre. O medo fazia a gente ficar somente com água até a cintura. Dava medo de vê-la se afogar. Não, nem vou mais pensar nisso. E como você é feminina! Gosta dessa maquiagem, desses vestidos da noite. Respeito sempre, apesar de achar que não precisas de nada disso para ficar bonita. Talvez todo o homem seja como eu, simples...Talvez não. Você chorou ao assistir Antes do Amanhecer comigo, debaixo do cobertor naquele sofá. Enxuguei suas lágrimas e te abracei forte. Não, não vamos nos separar como aqueles dois, vamos ficar juntos! Vendo você dormir assim agora é tão confortável. De vez em quando tens uns pesadelos e acorda bruscamente. Não foram poucas as vezes em que te dei abraços e disse: "está tudo bem, estou aqui". Andar na rua contigo de mãos dadas é uma das coisas de que mais me orgulho. É como desfilar "em campos de morango eternamente". E você pára nas vitrines das lojas para observar...Prefiro observar a você. E observar eternamente. Não quero mais levantar. Quero ficar aqui, desse jeito, para sempre. Sinto as batidas do meu coração acelerar ao lembrar disso tudo, de todos nossos momentos juntos. Por isso, vou ficar hoje aqui, desse jeitinho, te observando...E vou sussurrar baixinho, no seu ouvido vários "eu te amo", para que isso se misture com os seus sonhos.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sem inspiração

Transpiro e piro.
Na cadeira, um giro.
Suo. Sento. Não crio.
Não dou um pio.
Não estou no cio.
Nem um clique, nem um tique.
Olho o livro e me livro.
No cérebro, um crivo.
Um arrepio!
Nos olhos, um cílio,
Nas mãos, uma farpa.
Nas costas, a dor...
O verso escapa.
E vem pra chapa!
Queimo, frito,
Dou um grito.
Dou a cara a tapa.
Um sanduíche!
Uma olhada por cima.
Vixe!
Como os versos,
Mastigo a papa.

Mas nada me anima.

Nem o amor, nem o arco-íris,
nem o anão ou a fada...

E quando não vem a rima,

decreto:

Ou nasce um poema,

ou não nasce nada!

domingo, 19 de dezembro de 2010

O verdadeiro Papai Noel

Papai Noel - O que você quer ganhar de Natal?
Menininha - Uma "muneca" bem "munita"! 
PN - Papai Noel vai dar se você se comportar direitinho - respondeu o velhinho automaticamente, como qualquer Papai Noel de shopping. O emprego era um excelente "bico" e era garantido todo final de ano. José se aposentara fazia 2 anos e essa grana extra podia lhe ajudar a pagar as contas.
Menininha - Tá bom, Papai Noel! 
No entanto, o trabalho era cansativo. Todo tipo de criança, das mais educadas às mais pentelhas iam lá sentar no seu colo e falar sempre as mesmas coisas. As respostas do Papai Noel eram sempre automáticas. O calor também era insuportável e aquela fantasia não ajudava. Havia dificuldade também pra se alimentar, pra ir no banheiro... E ficar sentado todo aquele tempo enjoava. 


Já havia atendido umas 250 crianças naquele dia. Estava exausto. A voz já falhava. O que o consolava era o fato de não ter mais criança na fila. O shopping fechava às 23:00 horas e já eram 22:45. José estava aliviado. Porém, avistou uma última criança se aproximando. José escondeu a irritação. Só que aquele menino era diferente. Estava sujo, mas não de uma sujeira normal. Parecia que não tomava banho há dias. Estava todo encardido. O cabelo com uma mistura de oleosidade e sujeira. Olhos remelentos, pés descalços e unhas compridas. O menino se aproximou calado. José o encarou, um pouco receoso. 

Menino - O senhor é o Papai Noel?

José - Sim, meu filho! No que posso ajudá-lo?
Menino - Sua barba é de verdade? Você é o Papai Noel de verdade?
José - Eu falei que sim... 
Menino - É que eu não queria falar com o falso. Preciso muito fazer um pedido para o verdadeiro...
José - Como assim o falso?
Menino - É que no ano passado eu fiz um pedido para um Papai Noel e ele não me ajudou...
José - Mas você se comportou direitinho?

Menino - Acho que sim. 
José - Quantos anos você tem?

Menino - 8.
José - E qual o seu pedido para o Papai Noel?
Menino - Mas antes eu preciso saber se você é o verdadeiro!
José - Eu sou, já disse. Pode pedir. Qual o seu nome?
Lucas - Lucas!
José - Legal. Sabia que era o nome de um apóstolo de Cristo?
Lucas - Que que é apóstolo?
José - Os seguidores de Jesus... Ah, deixa pra lá.
Lucas - Mas você é o verdadeiro Papai Noel?
José - Sou sim, já falei! Não fale mais isso senão não vai ganhar mais presente!
Lucas - Eu nunca ganhei mesmo...
José - Como assim nunca ganhou?
Lucas - Eu não me lembro de ganhar nada... Se ganhei, era bem pequenininho.
José - Aonde estão os seus pais?
Lucas - É por isso mesmo que eu perguntei se o senhor é o verdadeiro Papai Noel...
José - Me explique isso...
Lucas - Eu perdi os meus pais. A gente morava debaixo do viaduto, mas no ano passado eles sumiram.
José - Sumiram?
Lucas - Eu não sei. Eu tava dormindo com eles, aí acordei e eles não estavam mais lá. O pessoal lá aonde eu durmo fica falando numa tal de chacina.

José suou frio.

Lucas - Eu queria saber aonde fica essa cidade chamada chacina. Talvez os meus pais estejam lá. Eu queria pedir para o Papai Noel de verdade mandar os meus pais de volta pra casa.

José não sabia como responder aquilo. Tentou desviar o assunto:

José - Você quer pedir algum brinquedo?
Lucas - Não, obrigado, eu já tenho tudo que preciso. Bolinha de gude, latinhas. Eu ganho umas coisas bem legais por trabalhar no sinaleiro. O pessoal já me deu até uma bola. Eu e os meninos jogamos de vez em quando.
José - Que tal uma bola?
Lucas - Ah, não pode pedir algo de comer?
José - Até pode... mas eu vou voar lá do pólo-norte só pra te entregar algo de comer?
Lucas - Mas esse é o seu trabalho, não é? E se não puder trazer os meus pais de volta, eu quero um daqueles salgadinhos de pacote vermelho. Pode ser um pacote de pão e um pouco de mortadela, porque aí eu divido com meus amigos lá do viaduto.

José sentiu um nó na garganta. 

José - Venha aqui menino! 
Lucas - Aonde?
José - Por aqui...

Foram até a lanchonete Burger King. José comprou um whopper duplo para Lucas. 

José- Pode comer tudo.
Lucas - Nossa, que sanduichão Papai Noel! Eu acho que você é o Papai Noel de verdade mesmo, apesar dessa barba estranha!
José - Barba estranha?
Lucas - É, é um pouco assustadora... Já vi outro Papai Noel com a barba mais bonita que a sua.
José - Você é uma figura! - Disse, sorrindo.
Lucas - Tá muito bom esse sanduichão. E essa batata aqui também! Obrigado Papai Noel, eu tava com fome! Opa, desculpa! (disse, depois de arrotar).
José - Isso é bom então?
Lucas - Muito! A melhor coisa que já comi na vida. Apesar de que uma vez eu comi um abacaxi bem gostoso que achei no lixo. Esse pessoal joga fora tanta coisa que ainda tá boa! Eu e meus amigos comemos aquele abacaxi com muito gosto. Só descascamos com o canivete do Toninho e pronto! 

José - Deve ter sido bom mesmo...

Lucas - Sim, Sim! Papai Noel, você vai poder realizar aquele meu pedido?
José - Tô pensando ainda sobre isso, menino! Come agora.

Lucas - Tá bom. 

O menino continuou saboreando cada mordida naquele sanduíche do qual ele nunca havia experimentado.



Ao finalizar, José disse:

- Satisfeito?

Lucas - Aham! Meu estômago tá até doendo. Nunca comi tanto na vida!
José - Que bom!

Lucas - Mas então Papai Noel, você vai realizar meu desejo?
José - Bem, essas coisas são meio complicadas para realizar...
Lucas - Eu sabia, você não é de verdade! Eu já ouvi falar que o Papai Noel de verdade realiza qualquer pedido que a criança fizer! 

José - Não é bem assim...
Lucas - É sim!! - disse chorando e se afastando.

José - Espera aí Lucas!

O menino foi caminhando para a saída do shopping, chorando. José o seguiu. Estava pensativo.Lá fora do shopping, Lucas sentou na escadaria e continuou chorando. 

José - Lucas, eu tenho que te falar uma coisa.
Lucas - O que, que você não é o Papai Noel?
José - Isso mesmo.
Lucas - Eu sabia! Por isso que eu nunca ganho presente nem nada, eu nunca acho o verdadeiro! 
José - Calma. O meu nome é José - disse, tirando a barba postiça e a touca.
Lucas - Viu, viu? Tem até barba falsa!
José - Eu trabalho aqui no shopping como Papai Noel. 
Lucas - Eu vi!
José - Pois é... 
Lucas - Mas agora eles estão fechando o shopping...
José - É, é hora de ir pra casa. 
Lucas - Pelo menos o senhor tem uma casa de verdade.

José olhou para o céu e ficou pensativo. Teria de tomar uma decisão.

José - Olha menino, eu moro sozinho. Minha esposa morreu faz 3 anos, não tenho filhos... Sempre quis ter, mas não pudemos...


O menino prestava atenção.


José - E eu tava pensando, enquanto seu pai e sua mãe não voltam, você podia morar lá em casa. Tem um quarto extra lá. Tem comida também. Você toma um banho, vai pra escola...

Lucas - O senhor tá querendo me adotar?
José - É, acho que é isso...
Lucas - Mas só até meus pais voltarem, não é?
José - Isso, isso! Quando voltarem você fica com eles.
Lucas - Fechado então! Eu sempre quis ir pra escola!
José - É bom querer mesmo. Lugar de criança é na escola, não na rua!
Lucas - E eu vou poder comer aquele sanduichão de novo?
José - Sim, todo final de semana.
Lucas - Aê! Legal! 


José - Vamos pra casa então?

Lucas - Vamos! - Respondeu, sorridente.


Lucas - José!

José - Diga.

Lucas - Eu acho que você é o verdadeiro Papai Noel sim, só não quer me contar!

José - Hahaha! Você é engraçado mesmo!...



A Lua se escondeu atrás de uma nuvem. Um último ônibus virou a esquina. Gatos brincavam perto das latas de lixo. Uma luz apareceu no céu. Era um fogo de artifício solitário.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O velhinho

Sempre que vejo uma criança,
como num relance
retorna a saudade 
de um tempo que se foi.
Oh, tenra idade!
Eu podia brincar
sem remorso,
Sem cansaço.
Com os meninos da rua,
Correria.
pular corda,
bicicleta,
Bola,
Pega-pega,
Cabra-cega
Todo dia!
E hoje, nada.
Fico aqui sentado
olhando a juventude 
pela janela.
O rosto enrugado,
calado,
encostado nela,
sendo a idade
minha própria cela.
Apesar de tudo,
tive uma boa vida.
Namorei, amei, casei,
filhos tive.
Porém, não me venha perguntar
como se vive.
Pois a vida
cada um sabe como tratar.
porque me arrependo
de não ter vivido,
a plenitude
da minha juventude.
Nem que tivesse sofrido
por qualquer atitude
que tomasse.
pois se nasce
somente uma vez.
Se envelhece
somente uma vez.
E aí chega o fim, 
você olha para trás
e pensa nas coisas
que não fez...

Agora vou me recostar
um pouco mais
na minha poltrona
e observar meus netos
brincando no quintal.
O cansaço chegou
logo vem um vendaval
e a fadiga é minha dona.
tenho que fechar os olhos
e descansar.
tenho que lembrar dos sonhos
e dos pensamentos que vem à tona.
Esse, porém, não é um adeus.
Talvez um tchau.
Um até logo.
Pois logo
nesse lugar
no qual estou
virá você
que agora lê.
Quando a idade chegar,
olhará para o que restou,
e lágrimas ofuscarão
tudo aquilo que você vê.
encarará o espelho
e finalmente
verá
como se sente
um velho
com a mente
no passado
nada recente.
A hora é agora,
minha criança!
Não deixe que o tempo
transforme a vida
na eterna lembrança
das coisas que nunca viveu.
Agarre o tempo
enquanto ele é seu.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Mimo, um gato esperto

Tinha 8 anos quando conheci o Mimo. Sabe aquele animal que parece um ser humano? Inteligentíssimo! Se é que podemos considerar todos os seres humanos de inteligentes. Porém, o bichano era doido. Vivia subindo em uma das árvores que havia no nosso terreno. Era como um ninja. Na velocidade quase da luz (que exagero) ele chegava lá no topo e ficava onipotente observando a rua. Quem sabe aparecesse um passarinho por ali? Mimo era um siamês bem gordinho. Eu gostava daquela cor dos pelos dele. Parecia um gato de desenho animado. Era bem caricatural. E, como todo o gato, tinha aquele ar de superioridade. Mimo era de uma nobreza esnobe; um fidalgo preso em pele animal. Faltava só a coroa pra torná-lo um verdadeiro monarca. 

Como era esperto aquele bicho! Ele aprontava as traquinagens e fazia de conta que não era com ele. Não foram uma ou duas vezes que ele roubou algum pedaço de carne da panela. Minha mãe ia com tudo de cabo de vassoura na mão. Às vezes quase o acertava, mas ele era extremamente rápido. Ou a minha mãe que não queria machucá-lo. Ela queria dar a entender que não gostava dele, não gostava dos pelos que ele deixava pela casa, do cocô que ele deixava (sempre no quintal, pois ele era muito higiênico). Xixi também, fazia só no quintal. Eu acho que aquele gato sabia que não podia fazer essas coisas dentro de casa! Acredito que com um pouco de treinamento ele poderia até mesmo se limpar... 

Mimo tinha um sexto sentido super aguçado. Ele previa as coisas de uma maneira que até hoje não entendo. Se adiantava em tudo de forma surpreendente. Adivinhava quando a gente ia dar comida pra ele. Se um cachorro invadisse nosso quintal, lá estava ele, de antemão, no topo daquela árvore, sentadinho no seu trono. Nada lhe escapava. Se a gente estivesse achando graça dele, fazendo cara de "óin, que bonitinho", logo ele vinha se esfregar nas nossas pernas, sentar no colo. Era super carinhoso, até anormal para um gato. Outra coisa incrível é que ele sabia também quando estávamos falando mal dele! Vou contar um fato que aconteceu para vocês entenderem:

Meu pai era e ainda é um exímio jogador, assim como eu. Ele disputava torneios de baralho, sinuca, pebolim, dominó, e assim por diante. Tinha diversos troféus que ficavam em cima de uma cristaleira. Não é que num belo dia o nosso querido Mimo foi se engraçar com as estatuazinhas? Ficou lá, brincando, dando soquinhos nelas, empurrando. E meu pai nem percebeu, pois estava no sofá vendo algum programa bobo. De repente, não sei como, o gato derrubou um dos troféus. Adivinha onde foi que ele derrubou? Bem na careca do meu pai! Aquela mãozinha da estátua fincou na cabeça dele e ele deu um grito alto! Claro que Mimo já estava longe antes mesmo de meu pai olhar pra ele. O gato sumiu uma semana, mais ou menos, depois do incidente. 

Só que meu pai não esqueceu o fato, até porque ainda tinha a marca do troféu na careca. No entanto, não fez nada contra o Mimo. Apenas reclamou dele. Aí que vem o lance interessante: quando a gente reclamava dele, ele abaixava as orelhas! Parecia que ele ouvia a conversa. No primeiro "Esse gato é um.." ele já tava abaixando as orelhinhas e saindo de fininho. 

Esse era o meu magnífico gato. Agora vem a parte trágica da história.

Mimo era arteiro, já falei. Acontece que ele não fazia suas estripulias apenas na minha casa. Ele andava pela vizinhança fazendo arte. As pessoas vinham contar pra gente sobre as tentativas dele de roubar comida, ou quando tinha caçado um rato, e até mesmo quando tentava pegar algum passarinho engaiolado. E a maioria dos vizinhos gostava dele.

Porém, alguém não gostou. Num dia tenso, muito tenso, quando eu tinha meus 12 anos, por aí, Mimo apareceu deformado. Haviam jogado água fervente nele. Coitado. O rosto dele, as patas traseiras, uma parte das costas, tudo estava queimado. Ainda bem que ele não ficou cego. Porém, dava pra ver que aquilo doía. E doeu mais ainda em mim. Meu gato nunca mais foi o mesmo depois daquilo. Perdeu a agilidade, não subiu mais no seu trono, passou a não ter mais tanta coragem. Parecia estar traumatizado. Passou a ficar sempre quietinho no seu canto, triste. Eu fazia carinho nele e ele retribuía. Sabia que podia contar comigo. Ele podia ser considerado um gato feio para os outros, pois estava deformado, mas pra mim ele ainda era o mesmo Mimo, lindo e inteligente. Meu querido siamês.

Ainda não chegou o momento mais trágico.

Mimo morreu. Talvez tenha acontecido num dia em que ele criou coragem e tentou novamente ser o gato esperto de antes. Acabou entrando numa casa e não saindo mais de lá. Havia dois cachorros ferozes nela. Não sei ao certo se eram da raça doberman, mas é isso que me vem à mente. Só sei que os cães o estraçalharam. Quando me contaram o fato, chorei, ainda que escondido. Meninos não choram, não é? Imagine um homem de 13 anos! Nem quis buscar os restos mortais dele. Não o enterrei. Não tive coragem. Preferia pensar que ele havia sumido. Que foi conhecer o mundo. Foi caçar os ratos de algum país distante. Quem sabe entrou num navio de cruzeiro? Poderia estar na China. Nos Estados Unidos. Ou teria aprendido a voar e agora estava lá no alto, sentadinho no seu trono nos observando, sempre com aquele ar esnobe. 


Até hoje quando vejo um gato eu lembro do Mimo. Quero um dia encontrá-lo, se for possível. Acredito que os gatos devem ter alma. E ele deve estar em algum lugar por aí roubando comida de algum anjo.

Mimo, aonde você estiver, esse texto foi feito pra você. Um dos animais que mais amei na vida e que ainda amo. Um amigo no qual eu sempre pude confiar. 

Um ser especial. 

Um gato voador.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Poema de amor n.° 10000

Os amores que não tive sempre se manifestam.
Nos soluços, à noite, no choro solitário.
Ela estará com outro, e ela, uma outra, também.
Lá fora, andorinhas fazem seu último voo, talvez.
Estrelas cadentes cruzam a parte obscura da Lua.
E você, especialmente você, estará com outro.
Fiz de tudo para conquistá-la. Não tive mais forças para continuar.
E esse uísque continua cada vez mais amargo.
E meu coração continua cada vez mais amargo.
E os dias passam, não tenho você.
Rugas. Barbas e cabelos brancos; olhos tristes.
Cada segundo, cada batida do coração me distancia de mim mesmo.
E as horas me fazem passear nesse limbo como se estivesse montado num carrossel.
E você está com outro. Você está feliz. Eu deveria estar feliz.
A Lua lá fora sorri. As nuvens cantam uma melodia tenebrosa.
As estrelas mudam de lugar.
Eu queria estar lá fora, livre.
Queria ser um nada.
Queria ser um tudo.
Já que não a tenho, que ninguém a tivesse.
Não a quero morta, somente gostaria que sumisse.
Pelo menos que sumisse dos meus pensamentos.
Que parasse de caminhar comigo todos os dias.
Que parasse de olhar nos meus olhos quando observo o espelho.
Que saísse das minhas retinas.
Que abandonasse meus sonhos.
Que eu não a visse nos braços de outro, nua.
Totalmente entregue a outro, feliz.
Não quero mais ver esse sorriso.
Não quero lamentar, não quero chorar.
Ainda se eu me afogasse nesse riacho de lágrimas.
Ainda se isso não doesse tanto.
Lá fora há somente pessoas felizes. E eu aqui.
Admiro a Lua. Apesar de sozinha, é brilhante.
E se nessa minha vida eu tivesse mais brilho do que o existente em seus olhos.
Se eu me amasse mais do que te amei um dia.
Se a vida fosse mais justa.
Se essas palavras não me ferissem como uma corda no meu próprio pescoço.
Ainda assim, gostaria de te amar mais uma vez, nem que fosse em outra vida.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Uma noite de tango em Calle Florida

Hola, que tal?
Yo conozco su Carnaval.
En la calle, um tango.
Um rango. Um Mc, Hermanos!
Dá pano pra manga.
Um tango bem dançado ou samba.
Na noite argentina, luzes confusas:
Con-fusos-horários.
Na pista, artistas, cabras guapos.
Nas esquinas, seres em trapos.
É festa, é arte. É quase marte.
Outro mundo. Florida Florida.
Cores e sumos de fruta.
Insólita solidão gostosa.
Cuanto custa?
solamente?
Me gusta! ahora un vino fino!
En la iglesia, un seno.
Um aceno.
Adíos hermanita!
Hasta la vista!

Amor de verdade

Amor na lápide, na tumba ou fossa;
atroz, covarde, nunca renasce.

Amor de praxe.

amor e ódio, sem sal, insossa!
Mas há ardor, ferida coça.

há o encaixe.

Quando, porém, lhe bate a face
quando, porém, pisa à poça
do amor sincero, há o enlace.


E A FELICIDADE nasce.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Capitão-salva-putas Vs. O atormentado pela sogra onírica.

Uma Zona "marromenos" chique (como em boa parte dos meus contos)...

- Me vê mais uma dose de Jack Daniel's, por favor! - disse o homem de aproximadamente 40 anos, barba branca por fazer, sobrancelhas grossas e vestido com um terno surrado.
- É pra já, senhor! - disse o garçom.
- Cowboy!
- Ok.
- Eu também sou acostumado a tomar Jack assim... - Disse o sujeito magro, por volta de 30 anos, de nariz pontudo e olhos de suricate.
- Tem bom gosto!
- Isso aí!
- Diego, prazer! - Disse o magricelo.
- Tom! - respondeu o de barba, fingindo certa virilidade à lá filmes western.
Diego - E o que te faz se entregar ao uísque hoje?
Tom - Minha sogra.
D - Como assim?
T - Eu tenho tido uns sonhos esquisitos com ela...
D - Vixe! Que tipo de sonhos?
T - Os mais loucos que você possa imaginar.
D - Me dê uns exemplos então...
T - Num deles eu voava como um passarinho em direção ao horizonte infinito, quando fui atingido por uma chuva de meteoritos que tinham, cada qual, o formato de um dedo do meio. Como se todos os meteoritos estivessem me mandando se fuder. Entendeu?
D - Que doido! - Disse Diego, rindo. - E aonde entra a sua sogra nesse sonho?
T - Eu caí direto numa cratera que me levou para o inferno. E adivinha aonde fui parar? No colo do capeta! Agora pensa em quem era o capeta?
D - Sua sogra?
T - Exato! Com chifres gigantescos e sentada no trono dourado.
D - Puta que pariu!
T - E quando ela sorriu pra mim o pesadelo acabou.
D - Menos mal. Imagina se isso tivesse continuação...
T - Só sei que ando atormentado. Eu acho que a véia é "meia" macumbeira.
D - Sai pra lá!
T - Ela deve ter feito algum trabalho contra mim, certeza!
D - Ela mora com vocês ?
T - Deus me livre! Quero aquela coisa desdentada longe de mim.
D - Que barra... Ela enche muito o seu saco?
T - A mulher acha que eu não sirvo pra filha dela. Sempre tentou nos separar. Só porque eu sou aposentado por invalidez...
D - Desculpa perguntar cara, mas como assim aposentado por invalidez?
T - Eu era professor. Os filhos da puta dos alunos da sexta série acabaram com minha saúde mental. Tomo remédios de tarja preta e tudo mais... O psiquiatra tem medo que eu me suicide ou mate alguém. Ele acha que sou um pouco psicopata... Essas coisas todas.
D - Caralho! E você pode tomar uísque assim?
T - Bem, poder não posso... Mas quem que aguenta ficar sem tomar umas de vez em quando?
D - Tá certo...
T - E você, que que faz por essas bandas?
D - Vou falar uma coisa meio "boiolística". Tô apaixonado...
T - Que "boiolística" nada, cara! Eu também já passei por essas coisas.
D - O meu problema é maior do que você imagina.
T - Então me conta, uai!
D - Tô apaixonado por uma puta daqui...
T - Que merda hein! Desculpa falar meu amigo, mas você tá fudido...
D - Eu sei. Mas cara, a mulher me pegou de jeito.
T - Hummm...
D - Não sou de pegar puta, sabe. Só que tava super necessitado e fiquei sabendo dessa zona aqui através de um amigo. Vim pra cá meio que sem saber se teria coragem. Então apareceu essa mulher. Nunca vi pessoa mais atenciosa. Me tratou super bem... Te falar cara, nem parece puta. Eu nem gosto de lembrar que ela é... Fico me enganando, sabe...
T - E de repente se apaixonou?
D - É. A gente transou na primeira vez. Ela me deixou fazer tudo... Só que ela era carinhosa. Foi doido. Parecia que eu tava com o amor da minha vida, sabe? A melhor experiência que eu já tive na cama. Ela sabia fazer bem a coisa.
T - Deixou fazer tudo, tudo? - disse, enfatizando o último "tudo".
D - Tudo... Isso aí...
T - Entendo.
D - E me cobrou a metade do preço na primeira vez. Na segunda ela nem me cobrou mais.
T - Você fica com ela de graça?
D - Sim! Venho aqui três vezes por semana... Ela é foda cara! Quero tirá-la dessa vida de puta!
T - Espero que você consiga!
D - Valeu pelo apoio!
T - Ela já está aí?
D - Vai chegar daqui a pouco... Tá quase na hora.
T - Aham...

(15 minutos depois... )

D - Olha lá ela...
T - O quê? - disse Tom, paralisado e com um olhar que aparentava um "estado de choque".
D - Que foi?
T - SANDRA?
D - Você a conhece? - Disse Diego, já bem aterrorizado por conta da reação de Tom.
T - Ela é minha mulher, seu filho da puta!
D - COMO?
Tom correu na direção de Sandra e já fui a puxando pelos cabelos. A mulher não teve tempo de reagir.
T - Sua vagabunda! O que você tá fazendo aqui? Esse é o horário de você ir para o curso de inglês!
Sandra - Ai amor, solta meu cabelo, eu explico... - Disse, já chorando.
T - Explica o caralho! Sua puta! Agora eu entendi tudo!
Sandra - Ai, calma!
T - Calma? Você tá pedindo calma pra mim? Calma você vai ver agora...
Tom pegou Sandra pela cabeça e bateu seu crânio contra a parede... Todo mundo na zona assistia a cena. Ninguém quis se intrometer, talvez por medo. As garotas de programa sumiram rapidamente. Somente ficaram no local os curiosos e Diego. Este tremia. Não sabia o que fazer. Viu Tom matar Sandra em segundos. Quando o marido traído abandonou o corpo da mulher no chão, logo olhou na direção de Diego.
D - Eu não fiz nada cara... Eu não sabia de nada!

Tom caminhava lentamente na direção dele com olhos diabólicos e flamejantes.
D - Me perdoa, por favor!
Tom chegou ao lado dele e se sentou no mesmo lugar que antes se encontrava.
T - Vaza! - Disse, sem olhar para Diego e admirando o copo de uísque.
Diego saiu correndo dali sem nem olhar pra trás. Algumas pessoas seriam capazes de dizer que o sujeito poderia facilmente disputar uma prova de 100 metros rasos.
Tom continuou saboreando seu Jack Daniel's. Já estava sozinho no estabelecimento. Ao longe dava pra ouvir a sirene da polícia. De repente o homem deu um sorrisinho maléfico com o canto da boca. Tomou o resto do uísque num gole só e disse baixinho pra ele mesmo:

- Aquela véia filha da puta...
Lá fora, um carro da polícia chegava. A algumas quadras daquele lugar, um homem corria como se não houvesse amanhã. O suor se misturava com as gotas da chuva repentina.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Amor, ENEM e o Mundo Digital...

João - Garçom, vê uma porção de batata?

Garçom - Com bacon?

João - Pode ser...

Lucas - João, você não era vegetariano?

João - Eu tentei ser por causa da Jéssica. Sabe como é né, agradar e tudo mais...

Lucas - Mas você era chato pra caralho! Não podia me ver comendo carne que já chegava falando dos malefícios, que eu ia morrer mais cedo, que teria um tumor nas bolas, no cu, etc.

João - Foi mal cara. É coisa de ator, tá ligado? Tem que incorporar o personagem, senão não dá certo. É coisa de acreditar na própria mentira.

Lucas - É um boiola mesmo! E a Jéssica, te largou mesmo?

João - Aquela filha da puta me trocou por outra menina.

Lucas - Disso eu não sabia! hahaha! Me conta como foi.

João - Sabe que eu e a Jéssica éramos fissurados por coisas eletrônicas, não é? Vivíamos no computador. A gente tava sempre no twitter, no facebook, no orkut, no myspace, no msn... Sempre baixando alguma coisa. Namorávamos muito mais online do que offline. A gente brigava quando um roubava a colheita feliz um do outro! Nosso programa preferido do sábado era baixar algum episódio de algum seriado de menina, tipo Gossip Girl, e ficar assistindo e falando merda no msn.

Lucas - Disso tudo eu sei...

João - Pois é. Sem contar que passávamos horas jogando videogame. Ela gostava de Wii Sports e eu de Zelda.

Lucas - Também lembro disso tudo. Você ainda é assim, um quase nerd.

João - Esse é o problema. Quando não estávamos juntos, nem mesmo online, a gente tava no celular conversando ou trocando mensagens. Nossa vida juntos só era possível por conta dos aparelhos eletrônicos!

Lucas - E isso é ruim?

João - Foi determinante na nossa separação... Jéssica começou a sair com uma amiga que era toda tatuada. Ainda por cima era roqueira e motoqueira. Se chama Luana...

Lucas - Tô até imaginando o que aconteceu...

João - A tal da Luana começou a levar a Jéssica em vários lugares que ela nunca tinha ido. Iam até montanhas, parques com grandes lagos, pontos turísticos, shows de rock, raves. Luana dizia que iria ensinar a Jéssica a viver. E não deu outra. Duas gatas correndo em alta velocidade numa moto em pleno pôr-do-sol... Cabelos jogados ao vento. Não tinha como competir com isso. Não tinha post no twitter que a trouxesse de volta para o meu lado. Reconheço a derrota. Reconheço também que foi tudo culpa da minha dependência com relação aos aparelhos eletrônicos e internet. Se não fosse isso, talvez ela não tivesse me largado pra ficar com a motoqueira.

Lucas - Triste, muito triste...

João - É por isso que eu vou comer carne! Que venha o bacon, a costela, a maminha, o pernil. Venham gaúchos com seus churrascos pingando sangue! Quero mais é devorar tudo pra contornar minha desilusão!

Lucas - Eu faria o mesmo, amigo!

João - Valeu pela compreensão. E você, cara, o que conta? Como foi no ENEM?

Lucas - Não fui.

João - Como assim?

Lucas - Foi uma merda! Estudei o ano inteiro pra essa porra, mas chegou na hora e tava tudo errado!

João - Pô, mas dizem que essa prova é super controlada e tals...

Lucas - Dizem, mas não é verdade! Pra começar, enfrentei um puta congestionamento pra chegar no local da prova. Quase perdi o horário. Aliás, muita gente se atrasou.

João - Que sacanagem...

Lucas - Aí abro o caderno de provas e ele tava cheio de erros. Gabarito errado, folhas em branco, questões repetidas, questões faltando... Sem contar que a prova tava super foda!

João - Sério?!

Lucas - Cara, metade das questões de humanas eram sobre zona rural, trabalhadores rurais, MST... Eu não sei nada dessa porra! E ainda veio uma pergunta sobre um tal de Michel Foucault. Nunca ouvi falar nesse merda!

João - Que grande merda!

Lucas - Eu tive vontade de sair correndo na parte de química. E na de matemática então... Queria ter incorporado o Einstein pra fazer aquilo. E, mesmo assim, não sei se daria tempo.

João - Vixe!

Lucas - A prova de inglês tava fácil. E a redação era super manjada. Nessas duas partes eu fui bem.

João - Pelo menos isso!

Lucas - Mas não vai adiantar nada, pois já anularam a prova!

João - Nem fiquei sabendo...

Lucas - É, o pessoal entrou na justiça por conta dos erros de impressão.

João - É bem complicado mesmo. Você se prepara um ano inteiro, chega na hora e acontece isso. É de colocar o dedo no cu e rasgar.

Lucas - Tinha que rasgar o cu de quem elaborou essa prova, isso sim!

(O garçom chega com a porção de batata)

João - Obrigado! Servido aí Lucas?

Lucas - Tô de boa... Cara, aquela ali não é a Jéssica?

João - Putz, é sim! E a Luana tá junto dela.

Lucas - Elas estão olhando pra cá...

João - Cara, esconde essa porção de batata! Ela não sabe ainda que parei de ser vegetariano!

Lucas - Esconder aonde?

João - Você realmente quer que eu responda isso?

Lucas - Calma também né... Ei, olha lá, parece que elas brigaram!

João - Eu tô vendo, tô vendo! Mas não fica olhando pra lá... Disfarça!

Lucas - A Jéssica tá chorando... Coitada. A tal da Luana a deixou. Por que você não vai até lá?

João - Espera ela sofrer mais um pouquinho...

Lucas - Tá certo. Mas acho que é a sua chance!

João - Tá bom, tá bom ...


... 1 mês depois...

Jéssica - Filho da puta! Filho da puta!

João - Que foi amor?

Jéssica - Não acredito que você roubou de novo minhas maçãs! Eu tinha acabado de plantar... assim nunca vou conseguir ter moeda verde pra comprar mais um terreno! Você vai ver quando eu tiver um cão de guarda, vai ver!

João - Que que você disse, amor? Eu tava postando no twitter e não entendi!

Jéssica - Esquece.

(O celular de Jéssica vibra)

(Uma mensagem)

(QUERO O SEU PERDÃO. AINDA TE AMO MUITO. LUANA S2)

João - Amor, você não vai mexer no seu twitter não?

Jéssica - Não. De repente eu perdi a vontade...