terça-feira, 30 de novembro de 2010

Mimo, um gato esperto

Tinha 8 anos quando conheci o Mimo. Sabe aquele animal que parece um ser humano? Inteligentíssimo! Se é que podemos considerar todos os seres humanos de inteligentes. Porém, o bichano era doido. Vivia subindo em uma das árvores que havia no nosso terreno. Era como um ninja. Na velocidade quase da luz (que exagero) ele chegava lá no topo e ficava onipotente observando a rua. Quem sabe aparecesse um passarinho por ali? Mimo era um siamês bem gordinho. Eu gostava daquela cor dos pelos dele. Parecia um gato de desenho animado. Era bem caricatural. E, como todo o gato, tinha aquele ar de superioridade. Mimo era de uma nobreza esnobe; um fidalgo preso em pele animal. Faltava só a coroa pra torná-lo um verdadeiro monarca. 

Como era esperto aquele bicho! Ele aprontava as traquinagens e fazia de conta que não era com ele. Não foram uma ou duas vezes que ele roubou algum pedaço de carne da panela. Minha mãe ia com tudo de cabo de vassoura na mão. Às vezes quase o acertava, mas ele era extremamente rápido. Ou a minha mãe que não queria machucá-lo. Ela queria dar a entender que não gostava dele, não gostava dos pelos que ele deixava pela casa, do cocô que ele deixava (sempre no quintal, pois ele era muito higiênico). Xixi também, fazia só no quintal. Eu acho que aquele gato sabia que não podia fazer essas coisas dentro de casa! Acredito que com um pouco de treinamento ele poderia até mesmo se limpar... 

Mimo tinha um sexto sentido super aguçado. Ele previa as coisas de uma maneira que até hoje não entendo. Se adiantava em tudo de forma surpreendente. Adivinhava quando a gente ia dar comida pra ele. Se um cachorro invadisse nosso quintal, lá estava ele, de antemão, no topo daquela árvore, sentadinho no seu trono. Nada lhe escapava. Se a gente estivesse achando graça dele, fazendo cara de "óin, que bonitinho", logo ele vinha se esfregar nas nossas pernas, sentar no colo. Era super carinhoso, até anormal para um gato. Outra coisa incrível é que ele sabia também quando estávamos falando mal dele! Vou contar um fato que aconteceu para vocês entenderem:

Meu pai era e ainda é um exímio jogador, assim como eu. Ele disputava torneios de baralho, sinuca, pebolim, dominó, e assim por diante. Tinha diversos troféus que ficavam em cima de uma cristaleira. Não é que num belo dia o nosso querido Mimo foi se engraçar com as estatuazinhas? Ficou lá, brincando, dando soquinhos nelas, empurrando. E meu pai nem percebeu, pois estava no sofá vendo algum programa bobo. De repente, não sei como, o gato derrubou um dos troféus. Adivinha onde foi que ele derrubou? Bem na careca do meu pai! Aquela mãozinha da estátua fincou na cabeça dele e ele deu um grito alto! Claro que Mimo já estava longe antes mesmo de meu pai olhar pra ele. O gato sumiu uma semana, mais ou menos, depois do incidente. 

Só que meu pai não esqueceu o fato, até porque ainda tinha a marca do troféu na careca. No entanto, não fez nada contra o Mimo. Apenas reclamou dele. Aí que vem o lance interessante: quando a gente reclamava dele, ele abaixava as orelhas! Parecia que ele ouvia a conversa. No primeiro "Esse gato é um.." ele já tava abaixando as orelhinhas e saindo de fininho. 

Esse era o meu magnífico gato. Agora vem a parte trágica da história.

Mimo era arteiro, já falei. Acontece que ele não fazia suas estripulias apenas na minha casa. Ele andava pela vizinhança fazendo arte. As pessoas vinham contar pra gente sobre as tentativas dele de roubar comida, ou quando tinha caçado um rato, e até mesmo quando tentava pegar algum passarinho engaiolado. E a maioria dos vizinhos gostava dele.

Porém, alguém não gostou. Num dia tenso, muito tenso, quando eu tinha meus 12 anos, por aí, Mimo apareceu deformado. Haviam jogado água fervente nele. Coitado. O rosto dele, as patas traseiras, uma parte das costas, tudo estava queimado. Ainda bem que ele não ficou cego. Porém, dava pra ver que aquilo doía. E doeu mais ainda em mim. Meu gato nunca mais foi o mesmo depois daquilo. Perdeu a agilidade, não subiu mais no seu trono, passou a não ter mais tanta coragem. Parecia estar traumatizado. Passou a ficar sempre quietinho no seu canto, triste. Eu fazia carinho nele e ele retribuía. Sabia que podia contar comigo. Ele podia ser considerado um gato feio para os outros, pois estava deformado, mas pra mim ele ainda era o mesmo Mimo, lindo e inteligente. Meu querido siamês.

Ainda não chegou o momento mais trágico.

Mimo morreu. Talvez tenha acontecido num dia em que ele criou coragem e tentou novamente ser o gato esperto de antes. Acabou entrando numa casa e não saindo mais de lá. Havia dois cachorros ferozes nela. Não sei ao certo se eram da raça doberman, mas é isso que me vem à mente. Só sei que os cães o estraçalharam. Quando me contaram o fato, chorei, ainda que escondido. Meninos não choram, não é? Imagine um homem de 13 anos! Nem quis buscar os restos mortais dele. Não o enterrei. Não tive coragem. Preferia pensar que ele havia sumido. Que foi conhecer o mundo. Foi caçar os ratos de algum país distante. Quem sabe entrou num navio de cruzeiro? Poderia estar na China. Nos Estados Unidos. Ou teria aprendido a voar e agora estava lá no alto, sentadinho no seu trono nos observando, sempre com aquele ar esnobe. 


Até hoje quando vejo um gato eu lembro do Mimo. Quero um dia encontrá-lo, se for possível. Acredito que os gatos devem ter alma. E ele deve estar em algum lugar por aí roubando comida de algum anjo.

Mimo, aonde você estiver, esse texto foi feito pra você. Um dos animais que mais amei na vida e que ainda amo. Um amigo no qual eu sempre pude confiar. 

Um ser especial. 

Um gato voador.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Poema de amor n.° 10000

Os amores que não tive sempre se manifestam.
Nos soluços, à noite, no choro solitário.
Ela estará com outro, e ela, uma outra, também.
Lá fora, andorinhas fazem seu último voo, talvez.
Estrelas cadentes cruzam a parte obscura da Lua.
E você, especialmente você, estará com outro.
Fiz de tudo para conquistá-la. Não tive mais forças para continuar.
E esse uísque continua cada vez mais amargo.
E meu coração continua cada vez mais amargo.
E os dias passam, não tenho você.
Rugas. Barbas e cabelos brancos; olhos tristes.
Cada segundo, cada batida do coração me distancia de mim mesmo.
E as horas me fazem passear nesse limbo como se estivesse montado num carrossel.
E você está com outro. Você está feliz. Eu deveria estar feliz.
A Lua lá fora sorri. As nuvens cantam uma melodia tenebrosa.
As estrelas mudam de lugar.
Eu queria estar lá fora, livre.
Queria ser um nada.
Queria ser um tudo.
Já que não a tenho, que ninguém a tivesse.
Não a quero morta, somente gostaria que sumisse.
Pelo menos que sumisse dos meus pensamentos.
Que parasse de caminhar comigo todos os dias.
Que parasse de olhar nos meus olhos quando observo o espelho.
Que saísse das minhas retinas.
Que abandonasse meus sonhos.
Que eu não a visse nos braços de outro, nua.
Totalmente entregue a outro, feliz.
Não quero mais ver esse sorriso.
Não quero lamentar, não quero chorar.
Ainda se eu me afogasse nesse riacho de lágrimas.
Ainda se isso não doesse tanto.
Lá fora há somente pessoas felizes. E eu aqui.
Admiro a Lua. Apesar de sozinha, é brilhante.
E se nessa minha vida eu tivesse mais brilho do que o existente em seus olhos.
Se eu me amasse mais do que te amei um dia.
Se a vida fosse mais justa.
Se essas palavras não me ferissem como uma corda no meu próprio pescoço.
Ainda assim, gostaria de te amar mais uma vez, nem que fosse em outra vida.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Uma noite de tango em Calle Florida

Hola, que tal?
Yo conozco su Carnaval.
En la calle, um tango.
Um rango. Um Mc, Hermanos!
Dá pano pra manga.
Um tango bem dançado ou samba.
Na noite argentina, luzes confusas:
Con-fusos-horários.
Na pista, artistas, cabras guapos.
Nas esquinas, seres em trapos.
É festa, é arte. É quase marte.
Outro mundo. Florida Florida.
Cores e sumos de fruta.
Insólita solidão gostosa.
Cuanto custa?
solamente?
Me gusta! ahora un vino fino!
En la iglesia, un seno.
Um aceno.
Adíos hermanita!
Hasta la vista!

Amor de verdade

Amor na lápide, na tumba ou fossa;
atroz, covarde, nunca renasce.

Amor de praxe.

amor e ódio, sem sal, insossa!
Mas há ardor, ferida coça.

há o encaixe.

Quando, porém, lhe bate a face
quando, porém, pisa à poça
do amor sincero, há o enlace.


E A FELICIDADE nasce.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Capitão-salva-putas Vs. O atormentado pela sogra onírica.

Uma Zona "marromenos" chique (como em boa parte dos meus contos)...

- Me vê mais uma dose de Jack Daniel's, por favor! - disse o homem de aproximadamente 40 anos, barba branca por fazer, sobrancelhas grossas e vestido com um terno surrado.
- É pra já, senhor! - disse o garçom.
- Cowboy!
- Ok.
- Eu também sou acostumado a tomar Jack assim... - Disse o sujeito magro, por volta de 30 anos, de nariz pontudo e olhos de suricate.
- Tem bom gosto!
- Isso aí!
- Diego, prazer! - Disse o magricelo.
- Tom! - respondeu o de barba, fingindo certa virilidade à lá filmes western.
Diego - E o que te faz se entregar ao uísque hoje?
Tom - Minha sogra.
D - Como assim?
T - Eu tenho tido uns sonhos esquisitos com ela...
D - Vixe! Que tipo de sonhos?
T - Os mais loucos que você possa imaginar.
D - Me dê uns exemplos então...
T - Num deles eu voava como um passarinho em direção ao horizonte infinito, quando fui atingido por uma chuva de meteoritos que tinham, cada qual, o formato de um dedo do meio. Como se todos os meteoritos estivessem me mandando se fuder. Entendeu?
D - Que doido! - Disse Diego, rindo. - E aonde entra a sua sogra nesse sonho?
T - Eu caí direto numa cratera que me levou para o inferno. E adivinha aonde fui parar? No colo do capeta! Agora pensa em quem era o capeta?
D - Sua sogra?
T - Exato! Com chifres gigantescos e sentada no trono dourado.
D - Puta que pariu!
T - E quando ela sorriu pra mim o pesadelo acabou.
D - Menos mal. Imagina se isso tivesse continuação...
T - Só sei que ando atormentado. Eu acho que a véia é "meia" macumbeira.
D - Sai pra lá!
T - Ela deve ter feito algum trabalho contra mim, certeza!
D - Ela mora com vocês ?
T - Deus me livre! Quero aquela coisa desdentada longe de mim.
D - Que barra... Ela enche muito o seu saco?
T - A mulher acha que eu não sirvo pra filha dela. Sempre tentou nos separar. Só porque eu sou aposentado por invalidez...
D - Desculpa perguntar cara, mas como assim aposentado por invalidez?
T - Eu era professor. Os filhos da puta dos alunos da sexta série acabaram com minha saúde mental. Tomo remédios de tarja preta e tudo mais... O psiquiatra tem medo que eu me suicide ou mate alguém. Ele acha que sou um pouco psicopata... Essas coisas todas.
D - Caralho! E você pode tomar uísque assim?
T - Bem, poder não posso... Mas quem que aguenta ficar sem tomar umas de vez em quando?
D - Tá certo...
T - E você, que que faz por essas bandas?
D - Vou falar uma coisa meio "boiolística". Tô apaixonado...
T - Que "boiolística" nada, cara! Eu também já passei por essas coisas.
D - O meu problema é maior do que você imagina.
T - Então me conta, uai!
D - Tô apaixonado por uma puta daqui...
T - Que merda hein! Desculpa falar meu amigo, mas você tá fudido...
D - Eu sei. Mas cara, a mulher me pegou de jeito.
T - Hummm...
D - Não sou de pegar puta, sabe. Só que tava super necessitado e fiquei sabendo dessa zona aqui através de um amigo. Vim pra cá meio que sem saber se teria coragem. Então apareceu essa mulher. Nunca vi pessoa mais atenciosa. Me tratou super bem... Te falar cara, nem parece puta. Eu nem gosto de lembrar que ela é... Fico me enganando, sabe...
T - E de repente se apaixonou?
D - É. A gente transou na primeira vez. Ela me deixou fazer tudo... Só que ela era carinhosa. Foi doido. Parecia que eu tava com o amor da minha vida, sabe? A melhor experiência que eu já tive na cama. Ela sabia fazer bem a coisa.
T - Deixou fazer tudo, tudo? - disse, enfatizando o último "tudo".
D - Tudo... Isso aí...
T - Entendo.
D - E me cobrou a metade do preço na primeira vez. Na segunda ela nem me cobrou mais.
T - Você fica com ela de graça?
D - Sim! Venho aqui três vezes por semana... Ela é foda cara! Quero tirá-la dessa vida de puta!
T - Espero que você consiga!
D - Valeu pelo apoio!
T - Ela já está aí?
D - Vai chegar daqui a pouco... Tá quase na hora.
T - Aham...

(15 minutos depois... )

D - Olha lá ela...
T - O quê? - disse Tom, paralisado e com um olhar que aparentava um "estado de choque".
D - Que foi?
T - SANDRA?
D - Você a conhece? - Disse Diego, já bem aterrorizado por conta da reação de Tom.
T - Ela é minha mulher, seu filho da puta!
D - COMO?
Tom correu na direção de Sandra e já fui a puxando pelos cabelos. A mulher não teve tempo de reagir.
T - Sua vagabunda! O que você tá fazendo aqui? Esse é o horário de você ir para o curso de inglês!
Sandra - Ai amor, solta meu cabelo, eu explico... - Disse, já chorando.
T - Explica o caralho! Sua puta! Agora eu entendi tudo!
Sandra - Ai, calma!
T - Calma? Você tá pedindo calma pra mim? Calma você vai ver agora...
Tom pegou Sandra pela cabeça e bateu seu crânio contra a parede... Todo mundo na zona assistia a cena. Ninguém quis se intrometer, talvez por medo. As garotas de programa sumiram rapidamente. Somente ficaram no local os curiosos e Diego. Este tremia. Não sabia o que fazer. Viu Tom matar Sandra em segundos. Quando o marido traído abandonou o corpo da mulher no chão, logo olhou na direção de Diego.
D - Eu não fiz nada cara... Eu não sabia de nada!

Tom caminhava lentamente na direção dele com olhos diabólicos e flamejantes.
D - Me perdoa, por favor!
Tom chegou ao lado dele e se sentou no mesmo lugar que antes se encontrava.
T - Vaza! - Disse, sem olhar para Diego e admirando o copo de uísque.
Diego saiu correndo dali sem nem olhar pra trás. Algumas pessoas seriam capazes de dizer que o sujeito poderia facilmente disputar uma prova de 100 metros rasos.
Tom continuou saboreando seu Jack Daniel's. Já estava sozinho no estabelecimento. Ao longe dava pra ouvir a sirene da polícia. De repente o homem deu um sorrisinho maléfico com o canto da boca. Tomou o resto do uísque num gole só e disse baixinho pra ele mesmo:

- Aquela véia filha da puta...
Lá fora, um carro da polícia chegava. A algumas quadras daquele lugar, um homem corria como se não houvesse amanhã. O suor se misturava com as gotas da chuva repentina.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Amor, ENEM e o Mundo Digital...

João - Garçom, vê uma porção de batata?

Garçom - Com bacon?

João - Pode ser...

Lucas - João, você não era vegetariano?

João - Eu tentei ser por causa da Jéssica. Sabe como é né, agradar e tudo mais...

Lucas - Mas você era chato pra caralho! Não podia me ver comendo carne que já chegava falando dos malefícios, que eu ia morrer mais cedo, que teria um tumor nas bolas, no cu, etc.

João - Foi mal cara. É coisa de ator, tá ligado? Tem que incorporar o personagem, senão não dá certo. É coisa de acreditar na própria mentira.

Lucas - É um boiola mesmo! E a Jéssica, te largou mesmo?

João - Aquela filha da puta me trocou por outra menina.

Lucas - Disso eu não sabia! hahaha! Me conta como foi.

João - Sabe que eu e a Jéssica éramos fissurados por coisas eletrônicas, não é? Vivíamos no computador. A gente tava sempre no twitter, no facebook, no orkut, no myspace, no msn... Sempre baixando alguma coisa. Namorávamos muito mais online do que offline. A gente brigava quando um roubava a colheita feliz um do outro! Nosso programa preferido do sábado era baixar algum episódio de algum seriado de menina, tipo Gossip Girl, e ficar assistindo e falando merda no msn.

Lucas - Disso tudo eu sei...

João - Pois é. Sem contar que passávamos horas jogando videogame. Ela gostava de Wii Sports e eu de Zelda.

Lucas - Também lembro disso tudo. Você ainda é assim, um quase nerd.

João - Esse é o problema. Quando não estávamos juntos, nem mesmo online, a gente tava no celular conversando ou trocando mensagens. Nossa vida juntos só era possível por conta dos aparelhos eletrônicos!

Lucas - E isso é ruim?

João - Foi determinante na nossa separação... Jéssica começou a sair com uma amiga que era toda tatuada. Ainda por cima era roqueira e motoqueira. Se chama Luana...

Lucas - Tô até imaginando o que aconteceu...

João - A tal da Luana começou a levar a Jéssica em vários lugares que ela nunca tinha ido. Iam até montanhas, parques com grandes lagos, pontos turísticos, shows de rock, raves. Luana dizia que iria ensinar a Jéssica a viver. E não deu outra. Duas gatas correndo em alta velocidade numa moto em pleno pôr-do-sol... Cabelos jogados ao vento. Não tinha como competir com isso. Não tinha post no twitter que a trouxesse de volta para o meu lado. Reconheço a derrota. Reconheço também que foi tudo culpa da minha dependência com relação aos aparelhos eletrônicos e internet. Se não fosse isso, talvez ela não tivesse me largado pra ficar com a motoqueira.

Lucas - Triste, muito triste...

João - É por isso que eu vou comer carne! Que venha o bacon, a costela, a maminha, o pernil. Venham gaúchos com seus churrascos pingando sangue! Quero mais é devorar tudo pra contornar minha desilusão!

Lucas - Eu faria o mesmo, amigo!

João - Valeu pela compreensão. E você, cara, o que conta? Como foi no ENEM?

Lucas - Não fui.

João - Como assim?

Lucas - Foi uma merda! Estudei o ano inteiro pra essa porra, mas chegou na hora e tava tudo errado!

João - Pô, mas dizem que essa prova é super controlada e tals...

Lucas - Dizem, mas não é verdade! Pra começar, enfrentei um puta congestionamento pra chegar no local da prova. Quase perdi o horário. Aliás, muita gente se atrasou.

João - Que sacanagem...

Lucas - Aí abro o caderno de provas e ele tava cheio de erros. Gabarito errado, folhas em branco, questões repetidas, questões faltando... Sem contar que a prova tava super foda!

João - Sério?!

Lucas - Cara, metade das questões de humanas eram sobre zona rural, trabalhadores rurais, MST... Eu não sei nada dessa porra! E ainda veio uma pergunta sobre um tal de Michel Foucault. Nunca ouvi falar nesse merda!

João - Que grande merda!

Lucas - Eu tive vontade de sair correndo na parte de química. E na de matemática então... Queria ter incorporado o Einstein pra fazer aquilo. E, mesmo assim, não sei se daria tempo.

João - Vixe!

Lucas - A prova de inglês tava fácil. E a redação era super manjada. Nessas duas partes eu fui bem.

João - Pelo menos isso!

Lucas - Mas não vai adiantar nada, pois já anularam a prova!

João - Nem fiquei sabendo...

Lucas - É, o pessoal entrou na justiça por conta dos erros de impressão.

João - É bem complicado mesmo. Você se prepara um ano inteiro, chega na hora e acontece isso. É de colocar o dedo no cu e rasgar.

Lucas - Tinha que rasgar o cu de quem elaborou essa prova, isso sim!

(O garçom chega com a porção de batata)

João - Obrigado! Servido aí Lucas?

Lucas - Tô de boa... Cara, aquela ali não é a Jéssica?

João - Putz, é sim! E a Luana tá junto dela.

Lucas - Elas estão olhando pra cá...

João - Cara, esconde essa porção de batata! Ela não sabe ainda que parei de ser vegetariano!

Lucas - Esconder aonde?

João - Você realmente quer que eu responda isso?

Lucas - Calma também né... Ei, olha lá, parece que elas brigaram!

João - Eu tô vendo, tô vendo! Mas não fica olhando pra lá... Disfarça!

Lucas - A Jéssica tá chorando... Coitada. A tal da Luana a deixou. Por que você não vai até lá?

João - Espera ela sofrer mais um pouquinho...

Lucas - Tá certo. Mas acho que é a sua chance!

João - Tá bom, tá bom ...


... 1 mês depois...

Jéssica - Filho da puta! Filho da puta!

João - Que foi amor?

Jéssica - Não acredito que você roubou de novo minhas maçãs! Eu tinha acabado de plantar... assim nunca vou conseguir ter moeda verde pra comprar mais um terreno! Você vai ver quando eu tiver um cão de guarda, vai ver!

João - Que que você disse, amor? Eu tava postando no twitter e não entendi!

Jéssica - Esquece.

(O celular de Jéssica vibra)

(Uma mensagem)

(QUERO O SEU PERDÃO. AINDA TE AMO MUITO. LUANA S2)

João - Amor, você não vai mexer no seu twitter não?

Jéssica - Não. De repente eu perdi a vontade...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Acorda, mamãe!

A mãe trancou a porta. Estava sozinha com a sua única filha de 2 anos. Era solteira. A gravidez foi resultado de um caso. Nunca quis ir atrás do pai, pois não valia a pena. A casa ficava numa região com poucos moradores. Cidade pequena do litoral paranaense. De vez em quando, surgiam uns andarilhos mal vestidos pedindo comida. Porém, a movimentação de pessoas era fraquíssima.

Após trancar a porta, caminhou alguns passos em direção da cozinha e caiu. Infarto fulminante.

A filhinha de 2 anos caminhou até a mãe. Sacudiu, sacudiu e nada.

- "acóda", mamãe!

E nada.

Ela começa a chorar. O choro fica cada vez mais forte e estridente em alguns momentos. Depois de algumas horas, a menina se cansa. Dorme ali, ao lado do corpo da mãe morta, no chão mesmo.
4 horas depois ela acorda. Nada da mãe levantar.

Vai até o banheiro, levanta a tampa do vaso, senta nele e faz xixi. Não lava as mãos.

Caminha até a cozinha. Está com fome. Come uns biscoitos que estavam em cima da mesa.

Vai até a sala. Liga a televisão. Muda de canal até achar algum programa infantil que gosta. Permanece lá, assistindo, deitada no sofá.

Escurece. Ela começa a ficar com medo. Principalmente porque alguns cachorros uivavam forte perto dali. Vi em todos os cômodos da casa para acender as luzes. O corpo ainda está lá, intocável. Bebe água e come pão. Porém, o medo não passa. O choro volta. Berros e mais berros. Tenta abrir a porta da frente, que a mãe havia trancado antes de falecer. Não consegue. Não entende aquele mecanismo de virar a chave... Além de chorar, agora ela bate na porta com suas mãozinhas, na esperança de que aquilo se abrisse. Depois de alguns minutos, desiste. Deita no sofá novamente e dorme.

Acorda na manhã do outro dia. Faz coisas semelhantes às do dia anterior.

...

Uma semana depois a menina está com fome. Porém, a comida havia acabado. Sem forças, não conseguia nem mesmo chorar. O corpo da mãe cheirava mal, o que a fazia evitar de chegar perto dele.

...

Uma semana depois, a menina está deitada no sofá de sempre, agonizando. Não sabia muito o que estava acontecendo, mas queria que aquela sensação amortecedora acabasse logo. A casa estava toda revirada... Ela havia procurado comida em todos os lugares. Tudo cheirava mal, inclusive a criança, pois não havia tomado banho. Claro que a maior parte do mal cheiro vinha do corpo da mãe já em decomposição.
...

Alguns dias depois, a menina ainda conseguiu expelir algumas lágrimas, numa mistura de tristeza e medo. Seu corpo todo doía. Ela não tinha forças. Estava agonizando. Puxava a respiração e o ar não vinha. Estava se sufocando. As lágrimas escorrendo e a dor aumentando. Ao olhar para para o chão, avistou uma pequenina formiga correndo e carregando folhas nas costas. Puxou o último fôlego e faleceu.

...

Do lado de fora da casa, um carteiro batia palmas. Estranhou o silêncio. Insistiu, insistiu. Acabou desistindo.

O sol se pôs. Os cachorros uivaram mais alto naquela noite.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O que acontece quando o amor acaba?



Você pode ser muito cético. Borboletas voando ao seu redor, brisa do mar, céu azul, ou estrelado, ou só o lusco-fusco, ou só o branco da neve, ou nada, e você nem aí. O que enxerga são estruturas. Cada sala é uma ante-sala para outro cômodo. A vida é vivida entre essas paredes. Você pode ser cético e cego para essas belezas. Porém, quando chega o amor... Ah, suspiros, soluços, bochechas ruborizadas, flashbacks dos encontros, projeções do futuro a dois, injeções de ânimo diário; sorrisos instantâneos ao saborear o gole de café. É o amor. Troca de olhares, carinho, cinema. Mãos dadas, bocas dadas, almas dadas e lavadas. Afagos, sossegos, sonetos solitários. Um solo seco é semeado; fertiliza-se. Visualizam-se frutos, árvores, jardins. Cuida-se desses jardins imensos. Rega-se dia após dia. O afeto contínuo do cotidiano. Visualizam-se a velhice, as virtudes de toda uma vida, as feridas. Cobrem-se as cicatrizes; atrozes cicatrizes.

Então, num belo dia - ou não tão belo assim - o amor acaba. Todo aquele esplendor se desmancha, se ofusca. O jardim se seca. As cachoeiras secam. Os pássaros e as borboletas somem. Os sorrisos se fecham, assim como as portas... Assim como as almas. Por algum tempo, vive-se num mundo cinza, monocromático. Tornamo-nos lobos sedentos, raivosos, asquerosos. É a transição. Não somos fáceis nesses momentos. Ficamos frágeis. Somos de vidro. Quebramos com um simples toque. Quanto maior a estatura do amor que desmoronou, maiores os efeitos da queda. E você pode cair com tanta força que o impacto é capaz de criar uma cratera, que te engole. Não tem como sair dela sem se esgotar. Mas você sai.

E surge um novo amor. Num relampejo, aparece o arco-íris. Renascem as flores no seu jardim. E o sorriso ao saborear o café quentinho ao tocar os lábios. O céu fica azul. As borboletas ressurgem, com as amigas andorinhas, com o cheiro da brisa do mar, com as luzes, a felicidade.

E some o abismo, some o sofrimento, secam-se as lágrimas. Fica só você e você, ao olhar para o espelho e reverenciar uma nova manhã. Encara-se. Observa-se. O reflexo faz o mesmo, óbvio. Na mente somente uma certeza: é muito bom amar a si mesmo. Você se ama. É completo em si.

Até que num belo dia - esse é belo ? - encontra um novo amor.

Um amor pelo outro.

Dará certo dessa vez?

Na dúvida, não traia aquele que está do outro lado do espelho.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

PUBLICIOTÁRIOS

Eu gosto deles. A publicidade dominou o mundo, não? Vc bebe SEMPRE coca-cola! Quem disse que não dá, a Fininveste dá! ;)

Dois hamburgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e um pão com gergelim...é Big Mac! Big Mac! Tcham! (barulhinho final).É verdade q o molho especial na verdade é maionese? Já me falaram isso. Outra coisa, algumas pessoas não sabem que picles é pepino...Se vc não sabe que picles é pepino, morra? Vc é um ignorante. (Y) Da mesma foram q eu, que não sei q molho especial é maionese...

Hellmann's, a verdadeira maionese! Hellmann's ... Sempre me intrigou o fato disso significar Homem do Inferno...Não é querer viajar na maionese, mas já viajando, o q o capeta vai fazer com isso lá? Aliás, alguém sabe como é feita a maionese? É simples: ovos, vinagre e sal. Agora me diga, o que isso tem a ver com homem do inferno? Simples: publicidade!!! Isso sim é o demônio!!!

Falar q a boneca da Xuxa chora sangue vende mais discos Só para baixinhos! Ela não tem um pacto com o capeta, ela tem com a Som Livre!

O que não deixa de ser algo parecido...

Um bom publicitário conseguiria fazer uma promoção sobre o nazismo: "compre a sua suástica com 0% de juros! Comprou, mata um judeu!"

E quando entra época de eleição? Lá aparecem os marketeiros com suas musiquinhas, historinhas cinematográficas de políticos, slogans... MEU NOME É ENÉIAS!!! Quem nunca viu isso? Brasil, um País de Todos...(se ligou no PT do Slogan?). Altas mensagens subliminares.

Mensagens subliminares...A coca tá cheia disso. Você é hipnotizado por algum comercial dela todos os dias. Chega a tomá-la mais q água. Sabia q a coca nem é tão boa assim? Qualquer gasosa de bar é melhor q ela. Mas o comercial te faz pensar que ela é incrível.Deixe de beber coca por uma semana. Não veja comercial nenhum dela. Depois prove: ela vai ter gosto de mijo doce. (Y) Sério!

Fora as mensagens subliminares de perfumes, cigarros, automóveis e cerveja. Tudo fazendo vc pensar que vai virar um comedor de bucetas. Prestobarba com cabeças giratórias...mexe a cabeça pra lá e pra cá. A cabeça...a cabeça... VIU a conotação sexual? Não são só os filmes da Disney que tem mensagens subliminares não meu camarada. Apesar de que as deles são bem satânicas...Mas não digo mais nada também, pq agora já não se acha Mensagem subliminar só em músicas do Roberto Carlos, em Rock e nos discos da Xuxa..

A moda agora é achar mensagem falando de satã em músicas evangélicas! Procure no youtube o que acontece se vc ouvir o hit Faz Um Milagre em Mim ao contrário! É quase um ritual satânico, sério... mas já estou me desviando do assunto: estou falando de publicitários, que também são demônios.

Eles conseguem vender a própria mãe; conseguem fazer você virar gay, doar seus órgãos, votar na Marina da Silva!

(Sou a favor de doação de órgãos, só pra deixar claro e para que não me processem!)

Se você cagar num potinho e der para o publicitário fazer uma campanha pra vender aquilo, ele vai conseguir! "É nutritivo comer fezes! Tem vitamina B5 e fortalece o DNA. Seu cabelo não vai cair mais. É melhor que viagra!" e por aí vai.

Fora as palavras em inglês: Feedback, briefing, holding, delay, smart, layout...Ah, vai tomar no cu! Vcs estão no Brasil porra!

Se vc tem um amigo publicitário ele sempre vai estar ocupado (Y). Aí vc pergunta: o que vc tá fazendo? Ele: mexendo no photoshop! O seu amigo publicitário estará SEMPRE, anotem isso, SEMPRE mexendo no photoshop. É um vício deles que não sei explicar. Não só no photoshop como estarão mexendo em todos os programas de imagens e realidade aumentada (e o diabo a quatro).

Mas não vou falar muito disso pra não perder amigos;Os quais devem essa hora dormindo, mexendo no photoshop ou jogando colheita feliz.

Minha dica final é: publicite-se, portanto, e seja feliz. Mesmo sendo um diabo na terra q só pensa na melhor maneira de vender a dentadura da própria vó.

sábado, 20 de março de 2010

Bêbados (crônica do Twitter)

Não tenho nada contra bêbados. Até porque sou um deles. Eles são muito importantes para a sociedade.Pois quem fala mal de bêbados são os outros 10% que não o são. Que q tem de mais você chegar em casa e dar umas chapuletadas nas crianças?
Criança merece muito levar umas porradas de qualquer forma. Crianças e gatos. Precisam começar a respeitar os mais fortes.
E tem vários tipos de bêbados, mas só duas classes: os fudidos e os não-fudidos.Os fudidos somos nós, os de classe baixa. Manos com tubão, gente produzindo Smirnoff Ice genérico (Sprite + Vodka), tomando álcool etílico.Por falar nisso, é muito inteligente o bebum que toma álcool etílico; pois ele bebe e já vai tratando das feridas. Muito Genial!
os fudidos são os mais camaradas. Todo mundo vira amigo deles. Podem até não ter dinheiro, mas insistem em pagar sua conta.Eles sobem nos palcos dos shows, se acham os maiores dançarinos, pensam que vão catar alguém naquela condição. E pior que uns levam sorte!Pois não existem somente homens bêbados! Muitas mulheres fazem parte desse grupo! Elas são a alegria da galera.
Sabe aquela mocréia de fim de festa? Aquela que vc cata meio com vergonha...vai levando-a meio escondido, pela penumbra...
Mas enfim, vamos falar de bêbados! Eu particularmente adoro os fudidos; os tomadores de vinho canção e pinga Nabundinha.
No entanto, ainda existe o outro grupo dos não-fudidos. São os caras com grana que excedem na dose quase todo dia.
Eles são os responsáveis pela idéia já generalizada de que "cu de bêbado não tem dono".Pois são, em sua maioria, gays enrustidos que resolvem se soltar quando tomam um pouco mais do seu Scotch. Ou do seu frizzante de 200 reais.Quer saber, eu não vou falar desse tipo de bêbado não! Eles que se fodam! Vou voltar a falar do outro tipo, com o qual me encaixo.Peraí, me encaixo no bom sentido hein! Seus maldosos! Daqui a pouco vem algum espertinho falar que vou jogar truco valendo o toba. :P

Se as sociedades de Antigo Regime tinham o bobo da corte pra alegrar, a nossa tem os bêbados fudidos de boteco!Eles trazem a felicidade para os becos...saem cambaleando nas ruas, dormem nas praças; acordam queimados na areia da praia.É uma beleza! Chegam em casa e dão uns tapinhas na mulher; umas chicotadas nos filhos pentelhos. No outro dia tá tudo em paz...Não sei como conseguem ainda acordar cedo pra ir direto pra construção. Eles são heróis na verdade! Eu os admiro. Nem percebi que já tô há quase meia hora escrevendo sobre bêbados. O assunto me empolgou! Cabe até uma parte II disso.

Mas fica pra próxima. Agora vou ali dar um gole no meu Smirnoff Ice genérico. Como não tenho mulher e filhos pra bater, eu durmo logo em seguida.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Como ser Loser (crônica do Twitter)


Primeiro, tenha internet. É necessário para virar loser. Tá vendo algum limpador de fossa aí na net? Não? Ele tá comendo alguém.
Ou seja, você que está na net tem o potencial de ser mais loser do que o cara que trabalha com merda.
Segundo: seja extremamente tímido. O professor VAI fazer perguntas pra você na aula e suas pernas VÃO tremer muito na hora de responder.
A menina feia que tá na festa olhando pra você não te quer! Ela tá somente observando um sujeito mais feio que ela.
Não pratique esportes. Não goste de futebol Prefira coisas de nerd, como baixar todos os episódios de Star Wars.
Vai sair com amigos? Deixa disso! Existe o Redtube! Veja os principais vídeos amadores feitos por sujeitos que poderiam ser você!
E lembre-se, o lema do Loser é: Eu não posso, eu não consigo, eu sou fraco
Amigos de verdade? Que isso meu camarada! Os virtuais são muito melhores!
Vão sempre te bloquear quando você estiver triste e precisando de alguém; vão mandar recados via scrap; te seguirão no twitter...
Cinema com a gatinha? Nada! Baixe filmes! Principalmente no megaupload! E no sábado à noite, quando todos estiverem nos pubs se divertindo!
E depois de assistir, entre nas comunidades do orkut do filme que assistiu e abra tópicos nos quais só você vai postar. Seja inteligente!
E saiba que pelo menos sua mãe e seu pai gostam de você! Apesar de eles olharem pra sua pessoa com cara de certo arrependimento.
Depois de uns 3 anos sem pegar ninguém, sem conseguir amigos de verdade, sem um emprego decente, sem nada, você se tornou um Loser.
Comemore com veemência! Conte a todos os seus amigos virtuais o seu feito! Mande scraps; escreva uma crônica sobre losers.
E sempre acredite que amanhã é outro dia. Mesmo que amanhã seja um eterna repetição disso tudo. Pois ser Loser é irreversível.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Estudantes (crônica do Twitter)

Inúteis, é certo, mas é bom fazê-los pensar que são o futuro da sociedade. Estudantes são como a fase larval de cada um de nós.

Aí com o tempo a gente vai evoluindo. Aprendemos a ler de verdade, a escrever de verdade, a raciocinar de verdade.

Estudantes brotam de árvores. São piores do que vendedores de guarda-chuva na hora do temporal. Estão em todos os lugares!

Uniformizados, lotam os ônibus, os shoppings, as praças, os mercados. Ou, desuniformizados, pubs, cafés, lanchonetes, shows de sertanojo.

São um exército de hormônios ambulantes loucos para se apresentarem ao mundo. Se acham os mais inteligentes, cults, descolados...

Sabem absolutamente tudo sobre as coisas mais inúteis, como o que aconteceu no último capítulo da Malhação, ou o que mais toca na MTV.

Você sabe o que é diversão? Um estudante sabe. Ele acredita que é dono do monopólio da diversão, do entretenimento.


Tudo que não faz parte da vida de um estudante é rotulado de chato. Eles ditam as regras, eles são os donos da verdade!

E se você é um estudante, você faz parte de alguma tribo. Os faveladinhos, os manos, os nerds, as gostosinhas, as seguidoras do Fiuk..

os new-punks, os grunges anacrônicos, os crepusculoides, harrypotterloides, CQClóides, e por aí vai. Vão a cada dia lançando uma moda.

Esqueci de High School Musicaloides, Jonas Brotherloides! É tanta mania que eu até me perco!

E é engraçado o discursinho dos estudantes. Os caras realmente pegadores são os mais quietos. As meninas que dão também.


Mas o que mais se ouve numa rodinha de meninos ou de meninas é sobre sexo, pegação, blá blá. Coisa que a maioria não pratica.

E quando praticam, alguns deles ficam tão empolgados que resolvem colocar na net pra criar algum escândalo a nível nacional.

Na verdade isso é mais uma prova de que são acéfalos, pois querem mostrar para todos que podem, que conseguem, que são foda!

E agora as empresas e os políticos descobriram que os estudantes, os jovens, são uma classe poderosa, mesmo sendo idiota.

Esses dias vi uma propaganda na tv que implorou aos estudantes para fazerem título de eleitor e para votarem.

Ao mesmo tempo, comerciais de várias marcas ficaram mais imbecis para se adequarem à estrutura psíquica debilitada de seus jovens clientes.

Mas passa. Isso tudo passa com o tempo. Já fui assim também, admito. Já passei horas em frente a tv assistindo mtv.

Já fui fã de Só Pra Contrariar, já assisti malhação e já fui revoltadinho; me vestia de preto e olhava para todos com cara de malvadinho.

Aí eu evoluí para um novo nível pokémon: dos adultos "chatos". É porque agora tenho responsabilidade, pago minhas contas, etc

Mas lá no fundo, bem lá no fundo, até que eu gosto de ser ranzinza. É o que garante a alegria do meu dia.

Pois posso dar aquele sorrisinho sarcástico e interno - sem peso na consciência - toda a vez que vejo um estudante passando perto de mim.

sábado, 13 de março de 2010

Sábados (Crônica postada no Twitter)

Sábado, segundo o mito, foi aquele dia no qual Deus colocou o chinelão havaianas, deitou na rede, tomou suco de laranja gelado e dormiu.
Sábados são os dias em que os policiais prendem mais traficantes. E que dão mais cacetadas em usuários.
Você é corno? Se sim, provavelmente se tornou um num sábado. Ou ainda o irá se tornar nesse dia. É quase uma lei isso.
Sábado à noite tudo pode mudar, já dizia a música. 89% dos gays se assumem como tal num sábado.
87% das pessoas no mundo foram concebidas no sábado. O resto foi na madrugada de segunda, depois do Fantástico.
Hitler se matou no sábado. Getúlio Vargas se matou no sábado. Kurt Cobain se matou no sábado. José Serra, corra que ainda há tempo!
Para 75% dos membros de qualquer religião no mundo o sábado é sagrado. O resto ainda não entendeu o que significa a palavra "sagrado".
Você é virgem? Pesquisas dizem que você tem 80% de chances a mais de perder a virgindade no sábado. Incluindo as chances de ser estuprado.
Treinos de Fórmula 1, concursos de Miss Universo, Bombas no Iraque, quedas de Torres Gêmeas: são inúmeros os acontecimentos de sábado.
Talvez por isso esse dia seja tão especial. Vai aqui o meu voto pra gente criar "sábado II" na semana! Imagine a vida como seria diferente!
Tipo: "a gente pode se ver no sábado meu amor" e aí: "ah, vou estar ocupada! Que tal a gente se ver no sábado II ?"
Você beberia pra caralho no sábado normal, mais ainda no sábado II; aí o domingo era só pra curtir a ressaca e assistir o faustão!
Seria interessante também para o esporte. Um dia a mais para a Globo lucrar com a audiência. Um dia a mais para o Galvão Bueno trabalhar...
Sem contar que as chances de perder a virgindade, virar corno, ser estuprado ou se matar se multiplicariam.
E o Serra teria um dia a mais pra pensar na minha sugestão...
(Quase todo dia posto uma crônica no twitter. Escrevo sempre na hora com o que me vem à cabeça. Alguns ficam acompanhando "online" o desenrolar do texto. Quem quiser fazer isso, pode me seguir no twitter: www.twitter.com/leandrofpaula)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Soneto dos Olhos de Cristal

Esses olhos de cristal,
Contam-me alguns segredos,
que no cruzar dos meus dedos
entregam-me ao tribunal.

Esses olhos de cristal,
Deixam-me apaixonado;
Coração aquebrantado,
Perdido no vendaval...

O tempo urge, é vil!
Sentimentos não precisam
Do amor querer o mal!

Com um brilho de anil,
Sempre me hipnotizam
Esses olhos de cristal...






domingo, 28 de fevereiro de 2010

Soneto do Amor Impossível

Tu sabes que dela gosto!
Tolo porém nunca fui.
Em lamentações recosto:
A paixão não se conclui!

Ela é muito! Eu sou pouco...
E sofro ainda mais!
O amor me deixa louco;
Ela é meu céu, meu cais!

Navegando em turvos mares,
Abandono minhas mágoas...
Não quero enlouquecer.

Aspirando novos ares,
atiro-me nessa águas,
Para nunca mais sofrer...













terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Desapaixonar

Nunca fui muito insistente.
Ao invés de esperar a água mole furar a pedra dura,
prefiro uma marretada.
Pago minhas contas na net, pra não enfrentar filas.
Paciência pra mim é um jogo de cartas.

Não tenho vergonha de desistir.
Não acredito que irei me arrepender por isso;
Não sou chegado a esses "conselhos de tia-avó".
Sou mais a minha honra.

E nem estou seguindo aquele ditado: "se não quer, tem quem quer"!
É mais uma escolha racional:
Eu sou feio, você é linda. Pronto! Cheguei a uma conclusão...
Difícil você me querer,
Assim como é difícil eu encontrar alguém que eu mesmo queira.

Ainda mais nessa liquefação do mundo.
E me irrita o fato de muitos e muitas se jogarem aos seus pés.
Não sou de disputar. Entrego o jogo fácil!
Nunca aposto todas minhas fichas num lance.
Se eu tenho um Flush, alguém pode ter um Full House.

Tudo é incerto, mesmo nas certezas.

Mas bastaria um sinal seu.
Por que não o fez?

Se eu tivesse um pouquinho de esperança que fosse...

Nunca adentro em selvas desconhecidas.
A escuridão da mata me assombra!
Preciso de pelo menos um mapa,
uma luz.
Um cego não atravessa a rua sem sua bengala.

E assim estou eu.

Precisava de uma orientação...
Um sinal verde que fosse.
Por natureza, só enxergo sinais vermelhos.
Não cometo infrações desse tipo.
Nem sequer sou daqueles que ultrapassam
os mais lentos.
Não porque tenho paciência, pois dessa não sou dotado:
mas porque tenho medo de bater o veículo.

Diante de tudo isso, renuncio aqui minha paixão por você.

Eu canso fácil.

E isso era previsível.

Porque, eu sou feio, você é linda.

Eu sou Deus e você uma simples mortal.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O medo de todos os dias

Para não me perder nos pensamentos, escrevo.
Pois escrever acalma, relaxa o aflito;
Supera o medo, mesmo por instantes.
E é constante. Na inconstância dos pensamentos.
Ordenadas palavras, ritmadas, cardíacas.
Mais estruturadas que os batimentos.
Sentimentos e pulsações vibram;

Escrevo porque estou só.
Sozinho ao pisar na areia todos os dias, morro.
Ao escrever, ressuscito.
E o coração aflito se rejuvenesce;
Nem que se apresse o caminhar,
Nem que se apresse o escrever,
o tempo é aliado.

Nas horas estranhas, tremo.
Porque o desconhecido assusta;
Quem não sabe o tanto que a paixão machuca?
É tão bom não gostar de ninguém,
olhar em volta e ver um mundo colorido.
Agora olho para os lados e vejo um mundo cinza,
pois estou sem você.
Só contigo enxergo felicidade,
na carícia das manhãs,
no feixe de luz,
no chacoalhar das águas,
no som dos pardais.

Por isso o medo.
Quero de volta minha felicidade solitária!
Roubaste de mim a coisa mais preciosa...
Agora jaz meu corpo sobre o catre;
E a ressurreição já não vem mais com a escrita...
Estou pobre, enfermo, triste.

O seu sorriso me nocauteia,
Seus olhos me cegam,
e sua voz me ensurdece.
Você me fez um ser infeliz...

Não sei se te amo, não sei se te odeio...


Mas se você estivesse aqui...

Mas se seu corpo e sua alma estivessem aqui comigo...

Bastaria um só beijo, um olhar apaixonado!
Seria o fim de mim mesmo

e o começo de uma história linda de amor (a dois).

(E o fim do amor solitário (de si))


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Arquiteto

Eu projeto. Visualizo, somo, meço. E Peço. Com vigor, peço que se cumpra, minha querida. Sou um funcionário assíduo, de cartão magnético, cabelos compridos e negros, fisionomia latina. Acima do peso...Atraente? Acredito que não. Bato o ponto e vejo se não me atrasei. Não, não me atrasei! Portanto é hora de medir, pedir, somar, dividir e visualizar, tudo novamente. Na mente desenho com empenho o que virá. De todas as cores são os amores que se vão. Num pensamento à jato, projeto você na minha vida. E sinto tremores, arrepios, calafrios, sabores. Lábio à lábio sinto e saboreio. Sacio o desejo do beijo. E penso, penso, penso. Construo andares acima de todos os lares. O meu amor é Babel. O meu amor é angelical. Voo contigo, Eva, no Éden imaginado. Nado por todos os mares, atravesso desertos contigo, só contigo, minha miragem. Disparamos no universo, por entre galáxias, estrelas anãs, estrelas gigantes; cruzamos o tempo, alternamos realidades. Somos um só, somos nós, ou apenas somos. Nos subdividimos em matéria negativa, positiva, neutra. E voltamos. Volto à projeção. Seu sorriso, a xícara de café. O sorvete derretido na sua boca...A dança e o bolo de avelã. O balançar da rede, a sede, a fome. O vinho e eu. O uísque e eu. Eu e você. Saboreamos as delícias de uma paixão arrebatadora. Quero te matar, quero morrer ou quero que você me mate. Sou Ulisses, Romeu, ou qualquer personagem de Shakespeare ou de Goethe. E você é a sétima camada dantesca. Rabisco paisagens, cenas, beijos, abraços. Com a régua traço uma linha; esqueço-a e faço uma curva, um círculo, um coração. E a música! Ah, a música! Uma sinfonia divina tocada por harpas celestes... O sopro do vento, o assombro das pessoas. Os transeuntes observando. O mundo pára. Apago o mundo. Nada mais existe além de nós. Só, olhando para a folha branca, amasso-a. Apago a luz. Continuo a projetar nossa vida nos meus sonhos. Então é melhor dormir, porque amanhã tenho outro dia de trabalho e essa rotina toda se reinicia...

domingo, 8 de novembro de 2009

Apenas pra falar da tristeza

Não estou bem. Lembro-me daquele momento no qual ainda era um bebezinho saindo da barriga da minha mãe. Fofinho, gordinho. Uma graça de criança. E aquele neném foi crescendo. Tornou-se um adulto com todos aqueles problemas conhecidos. E o adulto carrega dentro dele aquela criança que um dia foi. Um bebê que adorava sorrir, mesmo com a ausência de dentinhos. Quando chorava, era por fome, por dor física. Nunca o choro estava ligado ao emocional. Isso pelo menos até os oito anos, quando começou a sentir o coraçãozinho palpitar pelas pessoas que o cercavam. Agora grande, esse ser humano sente a necessidade de amor. Precisa dos outros. Não consegue viver sem ter em volta pessoas que gostem dele. No entanto, a vida teima em fazê-lo sofrer...

Ainda me lembro de quando tinha 10 anos. Apaixonei-me por uma menina. Um dia a tal mocinha apareceu na sala com o braço na tipóia. Fiquei com tanta pena, tanta. Sabe o que fiz? Cheguei em casa, após a aula, fui até a janela, levantei-a e a derrubei no meu braço... Não consegui me machucar da forma como queria. Contudo, falei para minha mãe que havia fraturado o braço. Eu queria acreditar naquilo. Não deu muito certo, pois o raio x acusou que estava tudo ok comigo.

Essa foi minha primeira decepçaõ amorosa. Não pude mostrar para meu amorzinho platônico que eu sabia a dor que ela sentia.

E tem sido assim. Hoje, com 25 anos, as coisas ainda continuam as mesmas para mim. Não há comunicação entre eu e as mulheres. Um campo de força invisível separa-me delas, impedindo-me de ser feliz, consequentemente.

Deus sabe quantas vezes chorei por uma mulher. Não tenho vergonha de derramar lágrimas. Foram muitas paixões recheadas de decepção. Projeções de felicidade que se desbotaram, ficaram foscas e sumiram. O colorido onírico sempre se transforma num preto e branco tenebroso.

E foram tantas vezes. Tentativas frustradas. Falsas tentativas... Eu sempre as quero e elas não me querem. Apaixono-me com tanta facilidade. Basta dizer que me acha legal e logo vejo a pessoa com outros olhos. No fim do dia sempre sobra meu quarto e eu mesmo preso nele. Minha prisão cotidiana. E a pior de todas, pois é em liberdade. Fico aqui sozinho lamentando. Fico também imaginando como seria uma vida mais feliz. E essa vida idealizada sempre está relacionada com a menina dos meus sonhos. A princesa encantada que me fará o cara mais feliz de todo o Universo. A criança dentro de mim sente necessidade dessa projeção. Ela quer se amamentar na felicidade. Se deliciar nos seios da esperança.

E ela olha para as moças nas ruas e vê a possibilidade. Porém, as moças das ruas não enxergam a criança. E ela chora. Em prantos clama por consolo. Este sempre vem, de algum lado. O choro passa, nem que seja depois de criar um riacho.

A criança olha as estrelas, olha o Sol, a Lua, o oceano. Tudo é cenário romântico. Ela se vê retratada naquelas pinturas famosas, como se o dedo de Deus a tivesse desenhado em cenas perfeitas. No entanto, logo tudo se desfaz e retorna a solidão. E mais tentativas frustradas. Ela implora para as moças: me ame! Por favor, me ame!

E as moças passam velozmente pelas ruas da nostalgia irreal. Não se dão ao trabalho de pegar o neném no colo ou mirar naqueles olhinhos brilhantes. E ele fica ali, chorando e se derretendo. Parece que o bebê é feito de açucar pra se derreter assim. E se afoga no Oceano da amargura. Sente-se sufocando quase até a morte. É uma sensação de querer gritar sem poder. É um grito interno que parece ser disparado quase como uma bala; vai ricocheteando nos órgãos e acelera o coração. E começa a disputa entre cérebro e coração. Os dois a iniciam na balança...Forma-se aquele equilíbrio inconstante. Após um tempo, cérebro e coração passam a disputar através do cabo-de-guerra. Puxam para um lado e para o outro. No fim, acabam fazendo algum tipo de acordo, quase sempre após a corda arrebentar.

Só que uma coisa é certa: a tristeza sempre prevalece. Pois a criança nunca pára de chorar!

E aquele sentimento engloba-se no adulto, quase como uma simbiose. Ele passa também a chorar. Novamente encontra-se no seu quarto aos prantos. Outra moça o deixou assim. O rapaz olha no espelho e se pergunta: o que tenho de tão errado? Fica tentando descobrir o que tem na sua personalidade que afasta tanto as pessoas, principalmente as meninas. Ele não sabe. Com certeza deve ser algo muito grave e imperceptível. Ou pode não ser nada; quem sabe apenas destino. Quando se percebe destinado a sofrer eternamente por amor, o adulto, (ou melhor, eu), fica tão triste quanto a criança. E as lágrimas retornam. Ele vai até o banheiro e as enxuga. Mas elas não cessam. O jeito é entregar-se a elas. Deitar e esperar que tudo aquilo passe.

- Oi, eu sou legal! Diz ele. As moças parecem não acreditar.
- Só quero te abraçar, beijar, fazer carinho e morrer abraçado contigo! Pensa, mas a moça o ignora.

- Vamos ter filhos, uma família feliz. Cozinho pra você! Limpo a casa, passo, lavo roupa, faço compras! Ele ainda insiste, mas percebe-se sozinho, numa sala vazia, falando com as paredes.

Avista a primeira que aparece, após horas de espera na rua das ilusões perdidas. Aproxima-se dela e se ajoelha. Implora uma chance. A moça o empurra, fazendo-o chegar ao chão. E ela desaparece. Ele fica arrasado. No chão, mais lágrimas o afogam. No entanto, não morre. Não consegue acabar com o sofrimento dessa maneira. O afogamento é permanente! Ele se zanga. Bate a cabeça nas paredes da sala vazia! Sangra, chora mais, sente o coração pulsando forte. Os dentes estão cerrados. Puxa os cabelos e os arranca gritando internamente. A voz não sai. Quando sai, é tão baixa que ninguém consegue ouvir. A respiração não vem. Continua aquele sufocamente. Ele aperta sua própria garganta, mas não surte efeito nenhum.

E olha em volta e vê vários casais felizes. Muitos beijos estalados. Pessoas fazendo amor nos corredores dos prédios. Nos elevadores. Casais na roda gigante. Maçãs do amor, algodão doce e beijos. Balões. Festas. Ônibus lutados de moças e rapazes que se amassam. Hotéis, motéis, carros lotados de casais apaixonados. Estão todos dispostos em fila, marchando contra ele. Está só no campo de batalha. Apesar de ser um exército de um homem só, nunca se vence uma guerra lutando sozinho... Todos aqueles casais apontam suas armas. O rapaz só tem uma lança para se defender, e ainda está quebrada. Antes dos tiros chegarem, perfura seu próprio peito. Mais uma tentativa frustrada de acabar com seu sofrimento. Quando vê, está novamente no seu quarto.
Agora percebe que está de frente para o computador relatando tudo isso no seu blog. Com os olhos cheios de lágrimas, pede socorro. E as lágrimas escorrem e chegam nos seus dedos. Atravessam a tela do laptop e atingem o texto em si. E surge um epitáfio:

Aquele que sempre quis amar mas que nunca foi amado. Lê.

No fim do post, ainda deixa mais um pedido, o qual foi escrito em conjunto com a criança dentro dele:

Por favor, me ame. E se não se importar com isso, que pelo menos não me faça sofrer mais do que já sofri.

Se sentiu algo com esse texto, que as palavras aqui descritas façam com que reflita sobre suas atitudes na vida. E nunca perca as oportunidades que lhe surgirem.

Aconteça o que acontecer, nunca deixe de amar a si mesmo e as pessoas que o cercam.

Eu cometi o erro de não me amar o suficiente. E talvez por isso ninguém ainda me ame do jeito que eu gostaria.

Peço perdão a você por isso.

Com amor,

Lê.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Boy: resposta à dama da noite

Olho pra você sentada aí sozinha e me dá certa pena. Minha querida coroa cheia dos preconceitos e infeliz, você acha realmente que suas palavras me afetam? Tenho cabelo arrepiadinho, sou boy sim, tenho meu jeito até mesmo juvenil nas minhas atitudes... Isso não quer dizer nada! Não pode querer me eliminar da face da Terra por coisas tão fúteis. Por acaso me conhece? Sabe alguma coisa sobre minha trajetória de vida? Conheceu meus pais? Você, minha querida idosa, é peça de museu velho. Acha ainda que vai aparecer um Humphrey Bogard nesse lugar aqui? Olhe à sua volta e veja a nova juventude que está surgindo. Somos todos de cabelo arrepiadinho. Somos mais do que a geração coca-cola. Somos a geração Twitter, Facebook, Orkut, Myspace, Fotolog, MTV, Emocore, Balada, Tubão. No entanto, queremos a mesma coisa que você, minha querida senhora: queremos ser felizes. Acha que um cara como eu não tem capacidade de amar? Pois digo, já amei, amo, do meu jeito, é claro. E nem vou responder acerca dessa história de que eu quero é dar o meu cu. E se eu quisesse dar, qual o problema? Você não tem o direito de dizer aos outros quais são as opções sexuais permitidas para cada um. Chupar uma bucetinha? Já cansei de fazer. Ao contrário de você, não idolatro isso. Talvez você faça do sexo oral um ídolo por não tê-lo praticado ultimamente. Meus amigos gostam de brincar que pessoas como você estão cheias de teias de aranha nas partes íntimas.
Na verdade tenho pena de você com todo esse mau-humor, essa tpm ambulante. Minha cara dama, você é daquelas pessoas que vão no supermercado e ficam com a cara amarrada, reclamando dos preços, fazendo os repositores (boys como eu) carregarem caixas de leite e fardos de farinha; você os faz colocar no seu carrinho e aí diz um obrigado seco, como se o pobre coitado fosse um escravo ou alguém subalterno. Você é daquelas senhoras que entram no ônibus e ficam prestando atenção nas conversas das pessoas pra chegar em casa e contar para a vizinha "como essa geração está perdida". Enquanto eu me divirto com minha galera, você fica no seu apartamento alisando seu gato preto e esnobe. Ou dando ração para seu cachorrinho com cara de rato. Realmente, minha senhora, realmente sinto pena de você. Acredito que seja daquelas pessoas pessimistas, daquelas que olham para a luz do sol e reclamam do calor; ou reclamam da chuva; ou do frio. Você não se importaria de usar casaco de pele, com certeza! Pois quer ser a Ingrid Bergman! Apesar de ser vegetariana. Porque ser vegetariano é chique. Quando passa por alguém que considera suspeito na rua, você logo desvia de caminho. Tem medo das pessoas! Tem medo de viver!!! Guarda sua caixinha de jóias como se fosse a urna sagrada do Tutancâmon! Não, eu não quero suas pérolas, pode ficar tranquila. Nem ligo para essas jóias. Dou mais valor para meus piercings e para minhas tatuagens. Talvez para o meu cabelo arrepiadinho... Que tal jogar um video-game comigo? Agora eu comprei um Nintendo Wii. Ah, esqueci, você não gosta de tecnologia! Não suporta esse pessoal que perde horas na frente de algum aparelho eletrônico. Tudo bem, é só deixar de perder sua meia hora diária passando laquê no cabelo. Vamos lá, vai ser divertido, principalmente o boxe. Você sua e fica em forma. Putz, esqueci que você não gosta de suar! Não vai querer fazer alguma caminhada, acampar, escalar montanhas... Se fizer isso, vai quebrar o salto, a unha. Não, não vou deixar tal tragédia acontecer contigo. Afinal, nem a louça você lava, com medo de deixar as mãos enrrugadas. Porque as rugas se espalham pelo corpo. Olha os pés de galinha no seu rosto! Se você não ficasse tanto tempo fazendo cara de quem não gostou, talvez não as tivesse...E, além disso, você tem empregada. Os R$ 300,00 que paga todo mês para ela precisam ser bem utilizados. Pois tempo é dinheiro, e dinheiro é vida. Ademais, você precisa ir no teatro, na ópera. Precisa encontrar mais pessoas ilustres como você, com laquê no cabelo e vestidos cor-de-abóbora-com-purpurina. Purpurina! Você é uma purpurina ambulante. Agora achei a palavra certa para lhe definir. Já consigo imaginá-la nas festas de fim de ano, solitária no seu quarto, lembrando dos tempos em que era feliz. Guardou uma espumante especial para aquele dia. Talvez sua amiga de Brasília a venha visitar no Natal. Quem sabe aquela ceia ainda possa ter sentido, caso tenha alguém para apreciá-la com a sua pessoa. Se não for no Natal, pode ser no Ano Novo. No carnaval. Na páscoa. E tudo isso pode passar e você pode ainda continuar sozinha, esperando seu Humphrey Bogard aparecer na porta desse pub. Se ele não aparecer, não seja tímida, pois o boyzinho de cabelo arrepiadinho não vai ignorá-la, caso puxe papo com ele. O boy aqui tem bom coração e sente pena de você com sua solidão. Agora, no momento, minha senhora, vou deixá-la aí sentada e vou curtir a balada com minha galera; talvez dar uns catos na minha gata. Tomar meu tubão e postar tudo no orkut. Ah, sim, claro, relatarei isso tudo no Twitter. Aliás, você tem Twitter? Tá, ok, vou deixar de fazer essas perguntas bestas. Agora vou mesmo. E caso queira se matar, prefira afogamento. Porque gás é perigoso para as outras pessoas. E, se pular do prédio, você pode acabar caindo em cima de alguém. Isso tudo é muito arriscado. Faça igual aquela moça, aquela escritora ... como é o nome dela mesmo? Virgínia alguma coisa. Será até mais chique pra você morrer assim... E se tiver um derrame ou infarto, que seja aqui por perto. O boyzinho pode ligar para a ambulância ou até mesmo levá-la de carro ao hospital. Não deixaria de prestar socorro a ninguém, nem mesmo a você que é tão, tão...Tá, não vou mais ofendê-la. Não mais do que você fez a mim. E se a gente não se ver, uma boa noite! Seja feliz!

Boyzinho

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Olympos Bar

A neblina trazia-me certa paz. Meia noite era um horário que eu realmente gostava. Ouvi os sinos da Igreja e atravessei a praça. Virei na rua da esquerda. Era um declive. A placa luminosa do local chamava atenção: Olympos Bar.

Garçom - Boa noite!

Leandro - Boa noite! Desce um Highland Park, por favor!

Garçom - É pra já!

Fez sinal com o dedo indicador, perguntando se eu queria uma pedra de gelo. Balancei a cabeça e pisquei, confirmando.

Olhei em volta e do meu lado dois sujeitos conversavam. Não hesitei, abri meus ouvidos para escutar.

Sujeito do terno Preto - Pois é isso, não sei o que faço com o Gabriel!

Sujeito do terno Branco - Ele logo aceita o destino dele. (fez isso e saboreou seu vinho tinto uruguaio, provavelmente um Tannat).

Os dois perceberam que eu ouvia o papo e me cumprimentaram.

Sujeito do terno Preto e Sujeito do terno Branco - Boa noite!

Leandro - Boa noite!

Sujeito do terno Branco - Você é o Leandro, não é? É um exemplo de vida. Muita gente comenta sobre você.

Leandro - Como sabe?

Jesus - Pode me chamar de Jesus. O cordeiro de Deus, seu criador. Prazer!

Olhei um pouco espantado.

Lúcifer - E eu sou Lux, ou Lúcifer. O diabo, cramunhão, entre outros nomes populares. Meu pessoal também tem falado muito de você...

Leandro - Poxa, que honra encontrar vocês dois! O que me contam?

Jesus - Estava aqui pensando com o Lulu sobre nosso camarada Gabriel. Ele anda meio perturbado. Um dia se diz anjo do bem, no outro anjo do mal. Não sabe de qual lado quer ficar.

Lúcifer - Eu queria muito que ele ficasse do meu lado, mas o Gabi vive querendo praticar boas ações...

Leandro - Entendo. Mas todo mundo é assim, não? Todos estão divididos entre o bem e o mal.

Jesus - Isso é verdade! Principalmente com seres humanos. A gente que é celestial ainda tem noção das coisas, mas vocês estão sempre perdidos.

Nisso aparece na porta uma figura curiosa. Bigodão saliente, meia careca, olhos nervosos.

Lúcifer - Nietzsche!!

Nietzsche - Olá! Lulu, Emanuel! Quanto tempo!

Jesus - Pois é! A gente precisa botar o papo em dia. Como andam as coisas na nova dimensão?

Nietzsche - Perfeitas! Agora estou trabalhando na análise de textos filosóficos dos reptilianos. Voltaire tem me ajudado muito. O problema é aguentar a chatice do Rousseau, com seus dramas existenciais. Se não fosse o Diderot pra alegrar todo mundo, não sei o que seria do nosso grupo.

Lúcifer - Interessante... Eles deixaram saudade.

Nietzsche virou-se para mim

- Boa noite!

Leandro - Boa noite! Eu sou o Leandro.

Nietzsche - Ah, já ouvi falar de você! Como andam as coisas?

Leandro - As mesmas de sempre. Vivendo, enquanto houver vida que valha a pena.

Nietzsche - Sei como é! Já passei por essa fase. Você ainda é jovem, vai saber como enfrentar isso.

De repente apareceram mais três sujeitos. Sorriram e se aproximaram da gente.

Jesus - Marx, Maomé, Buda!

Marx - Olá senhores!

Maomé - Noite linda essa.

Buda - E não passaram da 1h da manhã ainda...

Fiquei apenas observando o papo daqueles ilustres senhores.

Jesus - Estamos aqui faz algum tempo falando abobrinha. E vocês, o que têm feito?

Marx - Eu e Engels temos trabalhado no departamento de anjos anticapitalistas. Recrutando voluntários e tal.

Lúcifer - Ah, eu sei! Eles vêm pra Terra de vez em quando. Dão trabalho pra mim...

Marx - Estou sabendo disso! hehe! Mas é nosso trabalho.

Lúcifer - Claro!

Buda - Eu tenho me reunido com Gandhi. A gente tá pensando em dar aula de interiorização para o povo da realidade alternativa.

Jesus - Hummmm... O legal de lá é que tudo é imprevisível, até pra mim!

Buda - Verdade!

Jesus - E você Maomé, como está?

Maomé - Tenho visitado alguns planetas na borda do Universo. Gosto de conhecer outras culturas. Meu cavalo adora fazer viagens longas... Voar rápido pra ele é um grande prazer.

Lúcifer - Alguém aqui sabe por onde anda Zeus?

Jesus - Você não ficou sabendo que ele tem criado outros planetas por aí?

Lúcifer - Não fiquei sabendo.

Jesus - É, ele adora bancar o arquiteto de universos.

Lúcifer - Zezé é uma figura.

Eu estava maravilhado com aquelas conversas. Nunca tinha sentado numa mesa com pessoas tão interessantes. Nisso, Nietzsche chamou o garçom. Ele se aproximou da mesa.

Nietzsche - Qual banda vai tocar hoje?

Garçom - É um trio muito especial. Vocês já ouviram falar do Nevermind the Sun?

Jesus - Adoro! Eles vão começar a tocar a que horas?

Garçom - Agora mesmo!

Olhei para o palco e vi se ajeitarem nele Kurt Cobain, John Lennon e Elvis Presley.

Aquela noite foi inesquecível. A neblina ficou ainda mais forte no resto da madrugada. Às cinco da manhã, me despedi do pessoal que estava na mesa, paguei a conta, arrumei meu casaco e saí.

Ao dobrar a rua, avistei um gato preto com olhos fumegantes. Olhei pra ele e sorri. Ele retribuiu o gesto. Continuei até o fim da rua e sumi na neblina.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sobre Vampiros e vampiros: uma história real.

Cristine dormia tranquilamente. O céu estrelado e a Lua cheia tornavam aquela noite mais bela do que era de costume. O vento soprava timidamente. A penumbra era invadida pelo sutil brilho do cosmos.

Na janela surgiu uma sombra. Ficou estática, olhando para Cristine. Olhos avermelhados, intensos, de predador. Metacarpo aproximou-se da garota tão rápido quanto um flash de luz. Estava de pé ao lado da cama. Com as pontiagudas presas preparava-se para fazer mais uma vítima. Agora! Pensou...

Porém,

Cristine abriu os olhos e ele parou o movimento.


Cristine - Puta que pariu hein! Não se pode nem dormir sossegada mais!

Metacarpo - Agora já é tarde, é o seu fim. Prepare-se! (Ainda tentava inserir temor à vítima).

C - Ah, vai se foder! Não tenho medo de vampirinho não.

M- Como não? Eu posso esmagar seu corpo como se fosse um pacote de fandangos...

C- Pois faça, não tô nem aí!

M- Já não se fazem mais donzelas em perigo como antigamente...

C- A situação não tá fácil não meu camarada.

M- E por que você não tem medo de mim?

C- Não tenho mais medo da morte. Minha vida tá uma merda!

M- O que aconteceu com você?

C- O problema é minha mãe.

M- Como assim?

C- Ela estragou minha vida.

M- Pela minha experiência, na história da humanidade os progenitores têm auxiliado as proles na estrada da vida.

C- Pois a minha mãe não.

M- O que ela fez?

C- Tudo! Eu não sou a filha que ela queria.

M- Você parece ser uma menina legal, por que não agrada sua mãe?

C- Tá, vou contar minha história, isso se não te chatear...

M- Nada mais me chateia depois de dois mil e duzentos anos.

C- Putz, mas tu é velho mesmo hein! Tá bom então, vou contar. Eu trabalhava numa farmácia como atendente e ganhava super bem. O dinheiro me possibilitou sair de casa, meu sonho. O problema é que eu tinha outro sonho: me dedicar à música, minha paixão. Acreditava que um dia conseguiria realizar tal desejo. No entanto, eu trabalhava e morava sozinha. É aí que minha mãe entra na história. Ela não gostou nada desse lance de emancipação. Viúva como é, pois meu pai morreu quando eu ainda tinha um ano, sentia-se sozinha demais. Adoentou. Acredito eu que ela quis ficar assim só pra me ferrar! Pois bem, ela começou a me ligar. Dizia que sentia minha falta e que queria que eu voltasse a morar com ela. Todo o dia era a mesma coisa, ela ligava e me implorava. Então começou a me persuadir, falando que se eu voltasse a morar lá poderia largar meu emprego e pegar um mais light. Poderia inclusive entrar num conservatório de música para me dedicar ao meu sonho! Ela me conquistou com isso. Resultado: larguei o emprego e voltei a morar aqui com ela. Não deu um mês e a coisa se modificou. Ela passou a me cobrar: Menina, você só fica o dia inteiro no computador! Arranje um emprego! Não demorou muito para ela me chamar de vagabunda: fica aí vadiando o dia inteiro! E ainda por cima perde tempo tocando violão! Por que não vai fazer algo que preste! ...

M- Realmente, triste sua história...

C- O pior é que ela não me aceita como sou! Eu sou lésbica, fumo, bebo, saio à noite...

M- Hummm, sei...Sua mãe é mais vampira do que eu.

C- Ela cuida de uma lavanderia, por isso fica boa parte do tempo fora de casa. Só que quando ela chega eu venho aqui para o quarto. A gente não aguenta olhar uma para a cara da outra!

M- Que lástima!

C- Quero muito sair daqui. Voltar a me emancipar. Quero conquistar tudo de novo através da música.

M- Você conseguirá, se acreditar nisso.

C- Eu sei.

M- Você realmente quer que a sua situação mude?

C- Sim, faria qualquer coisa...

M- Pois espere um minuto...

(Metacarpo foi para o interior da casa numa velocidade espantosa. Voltou com a mãe de Cristine pendurada em seus braços)

C- Oh!

M- Aqui está! Como estou com fome, vou ao mesmo tempo me saciar e ajudá-la.

Mãe de Cristine - Oh meu Deus! Sua vagabunda, eu sabia que você aprontaria pra cima de mim! Só faltava isso, contratar alguém pra acabar comigo!

C- Eu não o contratei mãe. Ele invadiu nossa casa.

M- Cristine, espero que agora você consiga cumprir com seus objetivos na vida.

C- O que você vai fazer com ela?

M- Você sabe...

Mãe de Cristine - O que eu fiz pra merecer isso?!!!

C- Você fez muita coisa!

M- Adeus Cristine! Nunca mais nos veremos.

C- Adeus! Obrigada!

M- Obrigado digo eu...

Metacarpo saiu pela janela com a mãe de Cristine nos braços, segurando-a como se fosse um pacote de supermercado. A mulher ainda gritou para a filha:

- Sua vagabunda!!!

C- Sim, mãe, vagabunda. Porém realizada...

Cristine voltou a dormir tranquilamente naquela bela noite.

Longe dali, Metacarpo olhava para o seu jantar.

Mãe de Cristine - Seu filho da puta!

Metacarpo - Aceite o seu fim!

Mãe de Cristine - Nnnnnnnnnnnnnããããããoooooooooooo!

O vampiro sugou todo a sangue daquela senhora e se saciou pelo menos por aquela noite. Muitas outras noites ainda viriam pela frente. Só que uma coisa é certa: Metacarpo sentia-se bem por ter ajudado alguém. Fazia dois mil e duzentos anos que não sentia mais traços de humanidade em si mesmo.


O Sol apareceu e iluminou o rosto de Cristine. A garota deu um sorriso e pensou: esse é o primeiro dia de uma nova vida.


quinta-feira, 2 de julho de 2009

Ouija Shakespeariano

Pompeu
Penélope
Astrogildo

(3 amigos sentados no chão brincando com um tabuleiro Ouija)

Pompeu - Penélope caríssima, dama de longas tranças, podes fazer de mim o primeiro a jogar em tão fabuloso tabuleiro?

Penélope - Claro amicíssimo meu, todo seu és o tabuleiro. Algo contra Astro?

Astrogildo - Não quero constranger a vontade de meu querido Pompeu.

Pompeu - Devo lhes agradecer fiéis amigos. Tabuleiro que aqui estás, pergunto-lhe se neste local existe alguma alma que queira conosco se comunicar? E que Jesus, nosso Senhor, nos proteja daquelas que se atrevam a querer-nos fazer algum mal. Sabemos que o dia do juizo logo chegará, assim como o filho de Deus nos afirmou. Portanto, Ouija, aja!

Penélope - Nada acontece. Precisamos fazer alguma prece?

Astrogildo - O céu e o mar são testemunhas do que vou lhes dizer: Meu pai disse-me uma vez que esses jogos servem somente para assustar os tolos. Juro por Davi que eu já sabia o que aconteceria.

Pompeu - És realmente muito sagaz! Deveria nos ter alertado com antecedência, meu nobre!

Astrogildo - Seria acabar com suas vigorosas expectativas.

Penélope - Meus queridos, não estou bem!

Pompeu - O que tens?

Penélope - Calafrios...

Astrogildo - Não fico à vontade nessas situações.

Penélope - Acho que vou desm... (desfalece)

Pompeu - Traga ajuda, anda! Ficarei com nossa amiga.

Astrogildo - Logo retorno com um médico!

Pompeu - Espero que não seja tarde demais...

(Alguns segundos depois)

Pompeu - Essa linda dama que agora se apresenta desfalecida nos meus braços é tão doce e pura quanto o néctar de uma rosa existente no paraíso. Como queria ter esse amor. Esses olhinhos fechados! Parece estar implorando por carinho a minha querida Penélope. Longas mechas douradas que parecem com o ouro celestial das harpas tocadas pelos anjos. Ei-la. Eis-me aqui a apreciar tão rara beleza. Poderia beijá-la agora, claro! Não, não seria certo sem seu consentimento! Aproveitar-me de tal situação seria algo vergonhoso para um gentil moço como eu. Que as ninfas me flagelem por pensar em tal qualidade de coisa. O que, estás por despertar! Devo cessar meus pensamentos caluniosos.

Penélope - Pompeu! Apaguei completamente. Não sei o que houve.

Pompeu - Fique calma criança. Logo Astro retornará com um doutor!

Penélope - Talvez não seja necessário, estou melhor.

Pompeu - Nunca se sabe o que pode acontecer...

Penélope - Tens razão.

Pompeu - Podes continuar aconchegada nos meus braços enquanto isso.

Penélope - Não cheguei a pensar o contrário. És realmente um cavalheiro Pompeu!

Pompeu - Nada que outro moço bem apessoado não fizesse diante de tão delicada situação.

(Astrogildo retorna com o Médico)

Astrogildo - Vejo que ainda cheguei a tempo de salvá-la!

Médico - Parece-me que a situação não é tão grave como pensava. A rapariga retomou os sentidos.

Pompeu - Graças ao nosso Rei maior!

Médico - No entanto, pelo que posso observar, ela sofre de algo que não tem cura.

Penélope - Como assim ?

Médico - Primeiro preciso que Pompeu se deite, pois vou examiná-lo antes.

Pompeu - Não compreendo...

Médico - Anda! Ousas desafiar a ciência? Por Pitágoras! Não peço grande coisa a ti para fazer tal escânda-lo! Nossa juventude não é mais a mesma, a tudo questiona os mais experientes!

Pompeu - Deitado estou! Não precisa mais esbravejar!

Médico - Deixe-me ver... Sim, como pensava! Também não tem cura!

Pompeu - Oh não! É algo muito grave? Terei de avisar meus pais...Espero que meu irmão mais novo honre a família após receber toda a herança no meu lugar. Assim mesmo obra a fortuna em nosso caminho, não importa quão virtuosos sejamos! Longe no horizonte posso sentir minha alma se esvaindo no Vale das Almas. Orgulho-me de ter sido fiél aos meus princípios toda a minha vida! Anjo da morte, estou pronto para enfrentar o que para mim está destinado...

Médico - Agora preciso examinar a rapariga.

Penélope - Faça o que tens de fazer.

Astrogildo - A angústia tomou conta do meu coração...

Médico - Sofre do mesmo mal que Pompeu! É incurável! No entanto, acredito que ambos podem se ajudar.

Pompeu - Como, astuto senhor?

Médico - Sejam sinceros uns com os outros!

Astrogildo - Como?

Pompeu - Hein?

Penélpe - Hã?

Médico - Examinei a ambos e cheguei a uma conclusão. Estão apaixonados! Seus corações não mentem! Nunca apreciei órgãos com tanta vitalidade. No momento em que cheguei e os vi naquela cena digna de qualquer fábula de amor, fiquei sem vontade de interromper. Assim sendo, digo-vos: sejam felizes! E adeus!

Astrogildo - Espere senhor, vou acompanhá-lo! Quero deixá-los a sós para resolverem tal questão!

Médico - Sábia atitude, jovem!

(Saem)

Pompeu - Estás enrubescida...

Penélope - Não sou a única.

Pompeu - Queria lhe dizer que és perfeita!

Penélope - Pois digo-lhe o mesmo meu querido.

Pompeu - Faz anos que escondo meus sentimentos. Medo de perder sua amizade!

Penélope - Repito: digo-lhe o mesmo! Somos dois tolos!

Pompeu - Somos jovens!

Penélope - Estás certo.

Pompeu - Sinto-me como se estivesse flutuando por entre as ondas sísmicas. Meu coração bate forte agora ao seu lado, querendo saltar à boca! Como sonhei tantas vezes com esse momento, no qual saberias que te amo.

Penélope - A felicidade bateu também à minha porta. Nada poderia ser mais belo do que isso que agora vivenciamos.

Pompeu - Beijar-te deve ser tão refrescante quanto nadar nas lagoas do Éden.

Penélope - Então por que não experimentas saciar-se nessas lagoas?

Pompeu - O que me pedes há de receber...

Penélope - Com todo meu consentimento...

Tabuleiro Ouija (escrevendo sem que os dois enamorados percebessem) - A M O R.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A PLUMA E A PUMA

Achei alguns textos meus antigos perdidos no meu computador velho. Esse é um deles.


Olha que bela a pluma,
Girando no cata-vento!
Como com sangue afoga,
Bebe o próprio tormento.
Olha que bela a pluma,
Voe voe mas não suma.


Gire e gire na roda,
Saia deste sofrimento!
Veja, vomite a droga.
Perde-se a pluma no vento,
Unta a vida na fossa,
e tenta agarrar o tempo.

Olha que velha a puma!
Mais rápida que o vento!
Corre, alcança a pluma
Na liberdade da bruma,
Derruba o cata-vento.

Olha que bela a puma!
Gira agora o vento,
Livre do sangue, da droga
Puma na pluma afoga,
O próprio passar do tempo.